Lula no cárcere: o Brasil é um ‘Hino de Duran’

Aqui estou, atônito, enquanto penso no que sempre fizeram com todos aqueles que ousaram alterar a ordem das coisas estabelecidas neste país. O destino sempre foi este: a masmorra, o exílio ou a morte.

Minha geração não estava acostumada. Os livros, por mais devorados que tenham sido, não foram capazes de me dar a dimensão exata.

Lembro de Josué de Castro, coitado, que morreu deprimido porque foi enxotado do país. No exterior o colocaram como Diretor-Geral da ONU, enquanto ele queria estar no Capibaribe, criando política pública para os famélicos.

Celso Furtado, outro inglório militante do desenvolvimento à brasileira, viveu no expurgo.

O professor Darcy Ribeiro tentou colocar os indígenas na pauta. Foi expulso do país. Tentou educar as crianças, morreu fugindo do hospital para se tratar.

Créditos: Ricardo Stuckert

O Brasil é Leonel Brizola sendo ridicularizado como defensor de bandido.

O Brasil é o “Quarto de Despejo” de Carolina Maria de Jesus.

O Brasil é Frei Tito exilado e enforcado numa árvore.

O Brasil são os tiros que tiraram a vida de Chico Mendes. E a Justiça que livrou seus algozes.

O Brasil são quatro balas na cabeça da Marielle.

O Brasil é isso: elitismo miserável, fome e assassínio.

É acumulação por espoliação.

O Brasil não é o “capital produtivo”. Isso não fazemos a menor ideia do que é.

A riqueza do Brasil é a miséria generalizada. Sobretudo a intelectual. Dela, somos eternos dependentes.

Aqui só o capital destrutivo, mesquinho, parasitário, genocida, escravocrata.

Isso é o Brasil! Um país que sobrevive transformando corpos em estatísticas.

Publicado em 07.04.2018 no Facebook, um ano atrás, enquanto Lula era encarcerado pela Polícia Política de Curitiba.

Hino de Duran, de Chico Buarque, na voz de Oswaldo Montenegro.

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