O Brasil e a “Peste da Insônia”: como recuperar a memória perdida?

Há na literatura latino-americana a história de um povoado, que, certa feita, foi acometido por uma enfermidade conhecida como a Peste da Insônia. Uma vez contaminado, ninguém mais conseguiu dormir. No longo prazo, essa vigília resultou em perda paulatina da memória da população, e então os moradores tiveram que anotar até mesmo as coisas mais básicas, tipo o nome dos objetos, suas utilidades e significados, como estratégia para conter o esquecimento generalizado. O fim da epidemia só se deu quando do retorno de um cigano errante, que após andar pelo mundo trouxe consigo uma “substância de cor suave” capaz de conter a deslembrança.

O nome deste povoado é Macondo e a Peste da Insônia se passa no livro Cem Anos de Solidão, que valeu o Nobel de Literatura a Gabriel García Márquez, em 1982. Entre essa história e o Brasil, eu traço paralelos.

A Peste

No último domingo, 26, parte do eleitorado de Jair Bolsonaro ocupou as vias em 156 cidades de 26 estados e do Distrito Federal. Durante o dia, a TV, aquela que em nosso país mostra o que quer que aconteça, e nada acontece se ela não mostrar, transmitiu imagens desses protestos, numa espécie de chamamento velado, ainda que o discurso entre rua e tela não mostrasse consonância.

Enquanto aqueles a quem alcunho de farândola urravam em nome do que há de mais obscuro, como a própria família Bolsonaro, as forças policiais, o Exército, os cortes no sistema educacional, o silenciamento de políticos e a dissolução da corte judiciária, a mídia tradicional tentava vender o ato como uma manifestação de apoio à Reforma da Previdência, o principal – e talvez único – ponto de convergência entre todos os poderes burgo-dominantes na conjuntura atual.

O Brasil

As semelhanças são algumas. Desde 2013, quando o gigante trocou o berço esplêndido pela insônia, muitos são os sintomas que denotam a nossa progressiva perda de memória. Vejamos:

1) “Permitimos”, assim, entre aspas para não ser cruel com aqueles que lutaram para tentar impedir, um GOLPE DE ESTADO – em negrito e caixa alta – contra Dilma Rousseff. Uma presidenta que, gostemos ou não, foi legitimamente eleita e que não cometeu crime de responsabilidade passível para destituição. Este fato, para além de todas as suas consequências futuras, imediatamente retirou o Brasil do papel de uma das lideranças emergentes na gestão do capitalismo – ok, também espero bem mais que isso do meu país! – para devolvê-lo ao rol das republiquetas mais bananeiras do mundo;

2) Assistimos a aprovação da PEC do Teto, promovida pelo governo golpista de Michel Temer. Ou seja, o congelamento dos investimentos sociais, como Saúde e Educação, por 20 anos – aquelas lutas pelas quais “acordamos” em 2013, estão lembrados?;

Leia mais: PEC do Teto dos Gastos inviabilizou a educação pública no país, diz Dermeval Saviani

3) Testemunhamos uma Reforma Trabalhista obscena. Na prática, a destruição de uma conquista histórica, a CLT, com a promessa de que sua aprovação seria importante para alavancar a economia. Como já está cristalino, mais uma farsa que hoje nos revela 13,1 milhões de desempregados;

4) E elegemos um político carreirista, corrupto e de extrema-direita, sem nenhuma capacidade cognitiva (há como dissociar uma coisa da outra?), cujo projeto, estrategicamente escondido durante toda a campanha em 2018 em prol de uma pauta cinicamente moral, é gerenciar a implantação daquilo que chamo de “estado de mal-estar social”, claramente dirigido por Washington. Vem daí tanta submissão a Donald Trump e ao capital internacional.

Contudo, ora, apesar desse quadro que já dura quase seis anos, nada é definitivo. E essa é a parte boa: ao contrário do que disse Fukuyama, não estamos assistindo ao fim da História.

O antídoto

Aos poucos, a maioria da população brasileira se dá conta da peste pela qual se contaminou, e dá indícios, tal qual o povo na Macondo fictícia, de que começa a adotar estratégias para salvar sua memória. As pesquisas de opinião já mostram que a aprovação do governo se restringe ao seus cães mais fiéis. Aglutinados, em guarda, sem coleira e focinheira, eles ainda representam uma base importante. E eu não desprezo isso.

Todavia, com a economia em frangalhos e o país sem perspectiva, entrando em completo estado de colapso, veremos até onde irá essa fidelidade. Até Deus, que por aqui é conhecido como Mercado, também já começa a desembarcar da nau delirante.

As ruas lotadas de estudantes e profissionais da Educação no último dia 15, naquele que foi o maior movimento de contestação ao autoritarismo desde as passeatas do #EleNão, em setembro passado, com palavras de ordem contra a destruição das universidades e das escolas públicas, bem como, espero, nesta quinta-feira, 30, são outro sintoma.

Candelária lotada contra o corte na Educação – Bruno Kaiuca/Agência O Globo

A insatisfação dos caminhoneiros, que sentem a piora em suas condições de vida desde que paralisaram em 2018, bem como dos profissionais da Segurança Pública, apoiadores de primeira hora de Jair Bolsonaro, que hoje acusam o presidente de traição pelo texto da Reforma da Previdência que seu Posto Ipiranga, Paulo Guedes, quer aprovar a todo custo, são mais traços.

Por fim, outro grande clássico diz que o otimista é um tolo, e o pessimista, um chato. Sendo assim, prefiro crer nos sinais sendo um realista esperançoso. Com a consciência que, diferente da literatura, na vida até existe cigano errante, mas não há poção mágica.

Se o trabalhador brasileiro – até mesmo a farândola contaminada que foi às ruas clamar por autodestruição no último domingo – quiser preservar a memória do quão positivo é ter direitos que assegurem minimamente a sua dignidade enquanto ser humano, terá que descobrir a solução por ele mesmo, organizado nas universidades, partidos, sindicatos, coletivos. Nas ruas, enfim.

Ainda que se pareça com a sua Macondo, nem um gênio como García Márquez daria conta do Brasil. Nossa realidade é menos apaixonante e duramente mais complexa.

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