O individualismo da classe média não pode destruir o país

Estou absolutamente convencido que o grande mal de nossa sociedade é o individualismo. Há pouco conversava com uma comerciante no Centro do Rio, dona de um estabelecimento sofisticado onde se encontram cervejas artesanais. Cada garrafa sai em média por R$ 38. Um local que trabalhadores com salário de razoável a bom, como é o meu caso, conseguem frequentar para um cafezinho e uma última resenha após o almoço que antecede a volta ao escritório.

Papo vai, papo vem, até que o assunto chegou à política. Ela abriu seu voto no primeiro turno: João Amoêdo. Senti a abertura e puxei o assunto para o segundo turno. Perguntei: “e agora?”

Ela disse sentir nojo do Bolsonaro, porém “PT nunca mais. O PT destruiu a minha vida”.

Antes de ser proprietária deste estabelecimento, minha interlocutora foi dona de um espaço que servia como distribuidora dos Correios. Por algum motivo, a empresa não seguiu com a atividade naquele local, e o espaço que antes armazenava correspondências, hoje guarda lúpulo e cevada. Convenhamos, uma boa troca, embora o lucro pareça não ser o mesmo.

Voltando à eleição. Chegou minha hora de me abrir e disse que não suporto muitas ações do PT. Que somente em condições extremas ainda penso em votar no partido. E que nas circunstâncias atuais, uma dessas condições extremas ao qual me referi, o recorte para o voto será a Declaração Universal dos Direitos Humanos: não posso coadunar com as ideias de um candidato que encoraja seus eleitores a discriminar mulheres e negros, a assassinar homossexuais, a desrespeitar a laicidade do estado, a defender a tortura etc. Que pretendo me aposentar sem pensar em suicídio e que acho que Educação deve ser um direito ao alcance de todos.

Por isso, serei capaz de esquecer minhas diferenças, tapar o nariz e apertar 13.

Ela ficou pensando. O papo não pode se estender muito, portanto não sei se meu argumento foi suficiente para despertar empatia pelo que disse.

Do meu lado, a reflexão seguiu. Estou falando de uma pessoa que disse ser filha de uma italiana com um português, ou seja, com tripla cidadania. De uma pessoa que possui um estabelecimento comercial movimentado no coração da segunda cidade do país. Que disse ter a alternativa de viajar a Búzios no dia 28, para se abster de qualquer decisão. De uma pessoa que vende cerveja por 40 paus a garrafa.

Essa mesma pessoa acha que sua vida foi destruída por um partido. E a meu ver, isso mostra como nossa sociedade, a medida em que anda menos empática, fica mais doente. Sua loja de produtos tipicamente classe média, fica em pleno Largo da Carioca, lugar onde a desigualdade é vista a olho nu, com as marquises dos arranha-céus sobre as cabeças dos muitos ninguéns. E é neste local que ela acha que o PT destruiu sua vida.

Precisamos urgentemente repensar nosso individualismo. Por que se o coletivismo não é suficiente para construir um país, o individualismo certamente será para destruí-lo.

Jornalista.

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