Rio de Janeiro: a crise é, sobretudo, estética

Manter-se informado é um pulo para perder a saúde mental. Notícias ruins, principalmente no campo sociopolítico, sempre existiram, mas não como a avalanche de agora. Diferente das décadas passadas, quando era preciso buscar a informação, hoje, com as redes sociais e os aplicativos de conversação em celulares, estamos submetidos a um agravante que chamo de fascismo delivery, o absurdo na palma da mão, que uma vez lido, dispara o gatilho para sintomas psicossomáticos: sudoreses, náuseas, securas etc.

Enquanto leigo, creio que estes traços devem ser frutos da multiplicação do acesso aos conteúdos, da tecnologia que nos permite estar em contato com uma gama infinita de pessoas e de uma realidade surreal o bastante para parecer inacreditável. Conforme já abordei nesta coluna em outra ocasião, 2019 é um ano em que estamos sendo testados, uma vez que nossas vidas aparentemente se assemelham com um roteiro de realismo fantástico, onde o inconcebível abraça o palatável e o grotesco se transforma em banal.

Seria cabotino se este texto propusesse uma análise profunda sobre aspectos psíquicos da vida contemporânea e da comunicação. Não. Nas próximas linhas apenas elencarei alguns fatos, poucos porém suficientes, que revelam a decadência na qual mergulhamos, principalmente aqui no Rio de Janeiro. E tentarei mostrar como isso nos afeta. Se uma insônia endêmica contaminou boa parte do país, especificamente aqui há um culto ao excêntrico, uma experiência constante de busca pela superação do bizarro.

Crivella

Segundo o Datafagner, instituto de pesquisa informal, cuja metodologia se baseia acima de tudo na observação, dez em cada dez cidadãos do Rio de Janeiro repudiam o sobrinho-bispo-político de Edir Macedo, o CEO da Empresa, ops, Igreja Universal e da Rede Record.

Prefeito há dois anos e cinco meses, não há uma única realização que o coloque como bem avaliado entre os cariocas. “Saudades do meu ex” é um bordão comum desde os primeiros meses de sua (indi)gestão, ainda que o “ex” em questão não signifique a abreviação de exemplar.

Desde que os eleitores o colocaram na cadeira máxima do município, por medo do comunismo ou qualquer outro frequentemente vulgarizado no cenário político, o alcaide é sinônimo de inabilidade e negligência, substantivos que estão perceptíveis da portaria à cobertura, de Anchieta a São Conrado. A incompetência do homem é poderosa a ponto de colocar Nelson Rodrigues em xeque: a unanimidade não é burra quando o assunto é Crivella.

Crivella, desprezado pela população – Daniel Castelo Branco/Agência O Dia

Contudo, porém, todavia, o que leva um prefeito odiado, com níveis estratosféricos de impopularidade e ameaçado pela sua própria base a “bancar o engraçado”? Pois, pasmem, foi o que ele tentou fazer na última semana.

De maneira espantosa, usou do expediente do cargo para ferir susceptibilidades em uma incontinência verbal, um marketing reverso. Comparou uma ciclovia que não sustenta uma ressaca, uma obra mal planejada, superfaturada e que já matou duas pessoas, com um clube de futebol em crise.

Insatisfeito, em seguida desenhou uma aula sobre machismo, ao dizer que mulheres não entendem de futebol, em um mundo onde o movimento feminista eleva cada vez mais a voz em busca da igualdade de direitos.

Uma absoluta prova de desconexão com a realidade, dessas que andam naturalizadas nos tempos em que vivemos.

AuschWitzel

O xerife do Estado é um caso à parte e a alcunha não é à toa.

Há seis meses no cargo, não há indicativos de melhorias na qualidade de vida dos fluminenses que sejam frutos de sua atividade política. Ao contrário. Até o momento, AuschWitzel protagoniza somente ações espetaculosas, que demonstram que a nossa crise é socioeconômica, moral, mas é, sobretudo, estética.

Como bem lembrado há algumas semanas por um amigo, o também jornalista e colunista deste site, Caio Bellandi, não há registro na historiografia do Estado do Rio de Janeiro de alguém com fetiche tão acentuado por fardas desde a ascensão da saudosa Patty UPP no cenário do entretenimento audiovisual adulto.

Para além de todos os índices que corroboram justamente o Estado como o maior promotor de violência, o que em uma sociedade normal seria suficiente para colocar o governador na contramão do que se conhece como administrador público moderno, o Führer do Reich Fluminense já confeccionou uma faixa para a sua posse, algo inédito, e também outra, para posar como futuro presidente no submundo dos aplicativos de conversa, antecipando a eleição de 2022 em três anos e meio.

Wilson Witzel, o AuschWitzel. Governador ou presidente? – Reprodução

AuschWitzel também celebrou seu retrato feito com balas de fuzil, se expôs em uma sessão matinal de cooper com “os caveiras” do Bope, bancou o Falcão Negro em Perigo, fato que lhe proporcionou denúncias à organizações internacionais, e mentiu sobre seu currículo acadêmico.

Ou seja, de resultado prático em pouco mais de 180 dias daquilo que dizem ser um governo, produziu cadáveres e um noticiário que varia entre o caricato e o ridículo, o presunçoso e o escatológico, à luz dos olhos civilizados.

Duro. Do outro lado, cá estamos. E se é praticamente impossível seguir alheio a esta ópera-bufa, urge atentar aos sinais do nosso corpo. Bertolt Brecht dizia que quando o tempo não é alegre, sábio é o que se inquieta e idiota é o que vive em paz.

E se você está em paz, talvez eu lhe tenha uma notícia ruim…

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