Segurança Pública, grande mídia e o direito à desconfiança

Como bom cidadão da classe média remediada carioca, almoço me mantendo informado sobre a Segurança Pública pelo telejornal local. Nesta quinta-feira, 27, ele transmitiu, ao vivo, um intenso tiroteio no São Carlos, morro situado ali bem junto ao passo onde brilha a passista da escola de samba do Largo do Estácio. Um tiroteio realmente intenso, transmitido como há muito não assistia.

Fiquei pensando sobre o que vi e resolvi registrar.

O leitor ou a leitora me garantem o direito à desconfiança?

1. No início do mês, o STF, numa decisão para lá de razoável e que já deveria ter sido tomada há décadas se este país fosse um lugar minimamente decente, ratificou a proibição de operações policiais nas favelas durante a pandemia de Covid-19. A decisão do ministro Édson Fachin foi considerada uma vitória de vários movimentos sociais que levantam a bandeira da Justiça;

2. Na última quarta-feira, um grande portal de notícias daqui do Rio que, óbvio, tem alcance para moldar a opinião do país inteiro, publicou uma manchete, a meu ver, criminosa. Um libelo sobre o ódio de classe/raça, que já integra a histórica coleção de covardias do Jornalismo Hegemônico contra a população mais pobre/preta do Brasil. Dizia o seguinte: ‘Bunker’ de bandidos, Complexo da Maré concentra mais de 240 foragidos da Justiça. O print da divulgação realizada – e retirada do ar – no Twitter pode ser visto a seguir;

Manchetes que alimentam o ódio de classe/raça, despertam no governante a “obrigação de resposta” e resultam em Cláudias, Ágathas, Adriellys e Anas Cristinas. No mercado da carne pobre/negra, o Jornalismo Hegemônico é vendedor.

3. No final da noite, ‘uma facção criminosa’ então se reuniu para ‘tomar o São Carlos’. Na troca de tiros, já na manhã de hoje, uma trabalhadora morreu tragicamente. Ela se chamava Ana Cristina da Silva, tinha 25 anos, e estava indo trabalhar em um carro junto com o marido e o filho de três, quando foi atingida na cabeça e na barriga ao tentar proteger a criança;

4. Voltemos ao telejornal do começo do texto: um agente de segurança ouvido pela boa repórter que estava ali fazendo o seu trabalho – sob risco, ressalto – atacou, ainda que indiretamente, o STF. Na opinião do profissional, ‘inteligência não basta à polícia, é preciso ir a campo!’. O mesmo ainda ressaltou que ‘infelizmente a polícia está impedida de trabalhar’;

5. Por fim, o meu direito à desconfiança: levando em consideração todos os envolvidos e aqui os cito nominalmente: Governo do Estado, polícias, facções do comércio varejista de drogas e grande mídia, quem garante que esta não é uma ação orquestrada para desmoralizar a ACERTADA decisão do STF?

Seria a primeira farsa na Segurança Pública do Rio de Janeiro? Não. Confirmada, seria a última? Tampouco.

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Portanto, quero garantido o meu direito à desconfiança. E mais: desconfiem também. Sempre.

‘Realismo mágico é o que acontece quando uma situação realista altamente detalhada é invadida por algo que é estranho demais para acreditar. Existe um motivo para o realismo fantástico ter nascido na América Latina’. (Gabriel García Márquez)

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