Aos meus pais

Escrevo este texto no dia em que meus pais celebram 36 anos de casamento, bodas de cedro. Cedro é uma árvore que pode atingir 20 a 25 metros só no tronco e representa a solidez de uma união que chega aos 36 anos.

Sempre vi os meus pais como opostos que se atraíram em algum momento na vida e continuam se atraindo, pois dessa oposição nasceu não só uma filha, mas uma cumplicidade muito sólida. Meu pai é calmo, enquanto a minha mãe é agitada, fala alto, é 220 volts. Meu pai é mais sério, tão sério que chegou a assustar alguns crushes meus. Porém, é engraçado, tem um senso de humor que me faz rir diariamente. Já minha mãe não tem nada de tímida, mas tem pulso firme, é guerreira. Todas as mães são guerreiras, principalmente aquelas que tiveram infâncias difíceis e que começaram a trabalhar desde criança. E meu pai foi um visionário, pois enxergou que a educação é o caminho de um futuro melhor, numa época que poucos pensavam assim.

Eu sei que parte dessa visão dele no meio da fome, do trabalho árduo na roça é também um desejo próprio de estudar. Ele queria estar na sala de aula com seu lápis e caderno e não em plantações de tomates. Esse desejo se transformou em sonho e que se transformou em realidade anos depois.

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Eles se casaram em 28 de setembro de 1985, no interior da Paraíba. Poucos meses depois, chegaram na Rodoviária Novo Rio com duas caixas e duas malas. Em 15 de março desse mesmo ano, chegava ao fim a Ditadura Civil-Militar no Brasil. Meses depois, o então vice-presidente José Sarney, assumiria a presidência após o falecimento de Tancredo Neves, que jamais assumiu o cargo. Eram novos tempos, aos poucos a vida melhorava, mas muito devagar para os mais pobres. Afinal, a fatia do bolo – “é preciso fazer o bolo crescer e depois dividi-lo”, teria dito o ministro Delfim Netto- só chegaria nos anos depois à periferia, à classe trabalhadora e aos negros.

Até a vida melhorar foi muito difícil, conta minha mãe. Ambos trabalhavam na Zona Sul do Rio de Janeiro e cruzavam diariamente a Ponte Rio-Niterói rumo à casa de uma tia da minha mãe, que de muito bom grado, aceitou recebê-los em sua casa. Uma vez perguntei aos dois, se alguma vez sentiram vontade de voltar à terra natal, porém meu pai disse que não. Desistir não era uma opção, pois ambos sabiam que só o Rio poderia lhes oferecer um futuro melhor. E juntos persistiram até meu pai conseguir um emprego estável.

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Meus pais também comemoram 36 anos morando no Rio de Janeiro, jamais voltaram à Campina Grande. O Rio foi a cidade que lhes deu emprego, uma vida melhor e uma filha. Algumas pessoas se surpreendem ao saber disso, já que meus pais sequer viajaram de férias para visitar seus familiares. Não conheço a casa onde cresceram e nunca tive convivência com meus avós. Eles sim viajavam para nos visitar, mas eu sempre fazia uma cara feia porque bastava eles chegarem para já pedirem dinheiro. Até hoje alguns familiares dos meus pais acham que somos milionários porque moramos no Rio de Janeiro e a nossa vida nunca foi igual aos dos personagens das novelas do Manoel Carlos.

A verdade é que meu pai nunca tirou férias, ele sempre trabalhou os doze meses do ano e minha mãe também. Acho que isso se deve ao fato de ambos terem melhorado de vida através do trabalho. Eles conquistaram tudo através do trabalho. A minha geração já pensa diferente, tiramos férias, queremos viajar, pois a vida não é só trabalhar. E sim, a vida não é só trabalhar sete horas por dia durante os cincos dias úteis da semana, porém o medo de ficar desempregado é maior. Talvez muitos pais sintam esse medo como os meus. Afinal, quantas pessoas ainda trabalham mesmo aposentadas.

Hoje, celebro o dia e me orgulho dos pais que eu tenho, por mais 36 anos juntos e que um dia a gente possa tirar férias e sair por aí sem rumo. A vida também é isso.

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