Aos meus professores

Quando criança, eu disse à minha mãe que queria ser jornalista. Cheguei a dizer que seria economista também, como se eu fosse dada aos números. Até parece. Sou das palavras.

E isso se confirmou já nos primeiros períodos do curso de Letras, onde eu me sentia muito feliz, porém fugia da Licenciatura. Na época, achava que dar aula não era a o que queria fazer. Sou tímida e encarar 30 pessoas me olhando me faz suar frio só de imaginar. Hoje, não descarto a possibilidade de um dia dar aula, pois estou aprendendo aos poucos a me sentir confortável falando em público. E no fundo, a profissão que mais admiro é a do professor.

Aprendi desde pequena a respeitar meus professores. Não tenho muitas lembranças da minha primeira escola, porém, sei que a minha primeira professora se chama Rose. Foi com a professora Rose que aprendi as letras e a desenhar. Moramos na mesma rua até hoje e tenho a sorte de atualmente ser sua colega nas aulas de pilates.

Já a professora Márcia me fez aprender a ler e escrever e, infelizmente, faleceu de um câncer. Toda a turma chorou e fizemos muitas homenagens à ela. Sentimos todos os dias a sua falta, pois a professora substituta dava medo.

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Meus pais decidiram me transferir a outro colégio, mais perto de casa, o Henrique Dodsworth. Treinei e treinei para falar o Dodsworth, mas não conseguia. Por sorte, o então diretor me fez ler outro pedaço de papel e viu que eu já sabia ler. Ufa! O primeiro dia na nova escola foi horrível, só me senti bem quando cantava o Hino Nacional porque era época da Copa do Mundo de 1998. Contudo, eu gostei da minha professora, ela era negra e exigente. Pensando agora, ela foi a única professora negra que tive.

Cheguei em casa um dia chateada porque ela disse que eu deveria treinar mais a letra p minúscula. Ao longo dos meses, eu chegava em casa e contava ao meu pai que a professora Leila dizia que tínhamos que estudar muito. Ela contou que seu pai chegou a trabalhar vendendo alfinetes para que ela pudesse estudar numa escola particular. Meu pai não poderia concordar mais com esse incentivo, já que foi nessa época que ouvi que meu pai não teve a oportunidade de estudar. Minha mãe comprou cadernos e mais cadernos de caligrafia e melhorei a letra “p”.

Na 5ª série foi um choque para mim, porque estava acostumada a ter apenas uma professora e a partir daquele momento meus colegas e eu teríamos mais de um professor. Tenho um carinho especial pela minha professora de Português, Sônia Beatriz, pois ela incentivava muito a turma ler e frequentar a biblioteca recém-inaugurada da escola. Quando eu lhe disse super animada que estava lendo o primeiro livro da saga Harry Potter, ela ficou feliz.

Guardo boas lembranças do meu ensino fundamental, os professores nos incentivavam a cursar uma universidade pública. Um dia, estávamos tensos para o teste de História que se realizaria antes do recreio, e lembro da minha professora de Ciências me dizer: “Mas você não quer ser jornalista? É importante gostar de História”. E passei a me dedicar mais a disciplina.

Quando mudei de escola mais uma vez, dessa vez cursaria o Ensino Médio numa escola em Copacabana, o que mais desejava era encontrar professores que incentivassem a turma como os do Ensino Fundamental. Penso agora que talvez eu quisesse encontrar minha antiga professora de português nos novos professores que teria pela frente, e ainda bem que fui aluna de excelentes professores.

Gabriella com a professora Rose: um agradecimento a todos(as) os(as) professores(as) pelo dia (Acervo Pessoal)

Preciso dizer que alguns deles estavam cansados, pois os governos Garotinho e Rosinha foram os piores para a Educação do Estado do Rio de Janeiro. No entanto, ainda assim eles se dedicavam como podiam ao ofício porque gostavam e queriam tentar mudar a vida daqueles alunos.

Quando estava no 2º ano, senti falta do professor Marcelo. Ele dava aula de Português e Literatura. Era um pouco sério, porém gostava de saber o que seus alunos liam. Ele recomendava mais autores nacionais, mas não achava os best-sellers de todo ruins. No primeiro dia de aula do 3º ano, meu primeiro ano estudando pela manhã, tivemos aula de Matemática com um professor que eu não conhecia. Não sei por qual razão, mas ele escreveu no quadro o Mundo de Sofia, estava comentando com uma aluna sentada na primeira fileira. Disse que era um livro sobre filosofia. Algumas semanas depois, encontrei o seu perfil do Orkut e perguntei mais sobre esse livro, foi uma forma que encontrei de puxar papo. Achava-o bonito, porém era péssima na matéria. No Natal, ele me deu o livro de presente. Adorei! É um dos melhores livros que já li. Naquele último ano, recordo de ler bastante: Vidas Secas, O morro dos ventos uivantes e O Caçador de Pipas.

Quando cheguei à universidade, mais madura e com mais livros lidos, vi que autores brasileiros não são chatos como pensava. Foi ali que aprendi mais, pude aprender a ler o mundo. Sou muito grata.

Hoje, agradeço também a todos os meus professores, especialmente aos que passaram pelas escolas municipais e estaduais públicas. Apesar de todo o desrespeito com a educação, salários baixos, aprovação automática etc., vocês honraram a profissão.

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