Encontros não planejados

* Por Gabriella Figueredo
No meu último texto, contei que cresci achando que viajar era para os mais ricos. Alguns amigos e leitores me enviaram mensagens. Me surpreendeu receber um WhatsApp da minha antiga professora de português do ensino fundamental, a que mais me incentivava a ler, contando que ela conheceu alguns países com pouco dinheiro, mas conheceu. Seu filho trabalhou em lojas na época do Natal, pois queria fazer o Caminho de Santiago. E sempre que queria conhecer algum país, voltava a fazer um extra no Natal.

Acho que não só ele, mas muitos jovens que não ganhavam mesada dos pais, trabalhavam para economizar. Uma vez, li um livro da Martha Medeiros sobre viagens, Um lugar na janela, em que ela contava suas primeiras viagens sozinha e sem muita grana. Senti vontade de lhe enviar um e-mail, não sei por que, mas acabei desabafando que queria muito conhecer outros países, porém achava que o simples fato de pegar um avião e sair do Rio de Janeiro/ Brasil não era para mim. Ela me respondeu dizendo para eu ter paciência que um dia eu viajaria.

Quando fui estudar um mês em Madri, em 2018, morei com outros estudantes num pequeno apartamento na calle Gaztambide, igual ao sobrenome da Mônica, a Estocolmo da série La casa de papel. Conheci uma menina inglesa que estava planejando conhecer a Grécia com umas amigas. Ela estava procurando um hostel, já que era mais barato e havia um aplicativo que fazia sucesso entre os viajantes, o Airbnb. Graças aos aplicativos de acomodações mais em conta, muitas pessoas puderam conhecer muitas cidades ao redor do mundo. Já nos meus últimos dias em Madri, decidi que visitaria a cidade de Salamanca, que fica a umas três horas de Madri. É uma cidade muito bonita e universitária – a Universidad de Salamanca é uma das mais antigas da Espanha e é a que mais recebe estudantes brasileiros.

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Reservei um hostel e conheci duas brasileiras assim que cheguei, dividíamos o mesmo quarto, uma era professora e a outra estudante de Design. Saímos para conhecer a cidade, os dias eram ensolarados e quentes, vários turistas aproveitavam para fotografar a Catedral e comer paella nos restaurantes. Naquela semana de julho, muitos professores e pesquisadores participavam de um seminário na universidade, por isso passei a estar mais com a estudante de Design, a Natália. Eu disse a ela um dia que estava com dificuldades de reservar um hostel em Barcelona, já que os mais baratos já estavam todos reservados. Nesse exato momento em que falei, recebi um WhatsApp de uma amiga da faculdade, me enviando o contato de onde ficou quando fez intercâmbio em Barcelona. Agradeci aliviada e entrei em contato com uma menina espanhola chamada Dayana. Ela aceitou me receber na sua casa por 10 dias e foi um dos melhores encontros inesperados e não planejados da vida.

Gabriella entre Dayana e Laura, em setembro de 2019: um dos melhores encontros inesperados e não planejados da vida. (Acervo pessoal)

Lembro que cheguei às 6 horas da manhã na sua porta, vindo de uma viagem de ônibus de quase sete horas desde Madri. Ela me recebeu super bem, me mostrou o pequeno apartamento em que dividia com mais duas meninas e me indicou onde pôr minhas compras de supermercado na geladeira. Liguei para a minha mãe assim que guardei minha mala, e ela me disse: “Ocupe só a sombra”. Traduzindo: seja organizada, limpa e agradeça por você ter conseguido encontrar pessoas que te receberam.

Eu estava tão ansiosa para já conhecer a cidade, que não ia conseguir dormir. A Laura, uma das meninas que moravam com a Dayana, acordou e se apresentou. Quando eu disse que eu era amiga da brasileira que esteve morando com elas, ela disse “Ah, você é a menina que gosta dos livros do Zafón?”. Nos abraçamos, nem poderia acreditar que havia acabado de encontrar uma leitora de A sombra do vento. Conversamos e ela me disse que as Ramblas ficavam perto e lá fomos nos fazer um tour pela cidade.

* Gabriella Juvenal Figueredo é filha de Jerônimo Figueiredo e Maria José Juvenal, um porteiro e uma trabalhadora doméstica. Graças às políticas de inclusão, cursou Letras na PUC-RJ e História da Arte, na Universidade de Navarra (ESP). Atualmente apresenta o Elevador de Serviço, programa da TV Democracia, no Youtube. Fala sobre a vida aqui no Lado B, às quintas-feiras.

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