Francamente, estamos cansadas!

Eu poderia começar este desabafo dizendo que o Brasil se tornou algo como o livro “O conto da aia”, mas preciso confessar que ainda não o li e só vi o primeiro episódio da série – está na fila de séries para continuar. Quem leu e já viu a série vai afirmar que sim, não falta muito para o nosso país se tornar o que a escritora canadense Margaret Atwood escreveu em seu romance distópico.

Falar que a vida das mulheres está parecida ou quase igual a tal livro ou série é pouco para o que estamos vivendo hoje. Na verdade, nós mulheres sempre sofremos desde comentários como “cuidado para não morrer solteira” ou “quando vai engravidar?” a abusos morais e violências sexuais. Graças ao movimento feminista, temos hoje a oportunidade de falar dessas situações de falta de respeito que não falávamos, muitas vezes nem com as nossas amigas mais intimas. Nem percebíamos que era errado.

Quem nunca pensou que o marido tinha razão em querer transar quase todos os dias e você, esposa, tinha que aceitar mesmo sem vontade? Quem nunca achou que o chefe tinha razão em tratar mal tal funcionária porque ela não trabalhava bem?
Que mal tem um comercial de cerveja em que aparece mulheres rebolando a bunda com frases machistas?

Eu cresci nos anos 1990, fui adolescente nos anos 2000 e ouvia, às vezes, histórias de mulheres que sofriam violência doméstica. Essas mulheres moravam ao nosso lado. Os vizinhos não perdiam a oportunidade de comentar que a “fulana apanhava do marido”.

Ninguém a ajudava.
Ninguém chamava a polícia.

Lembro de uma novela de Manoel Carlos (Mulheres Apaixonadas) de 2003, no horário nobre, um homem batia numa mulher com uma raquete de tênis. E as pessoas ficavam indignadas assistindo essa violência? Não. As pessoas achavam graça. O ator quando caminhava pelas ruas recebia até elogios e brincadeiras. A grande pergunta é: por quê? Num país machista que valoriza os corpos magros, brancos e sem imperfeições, há muitas perguntas e, infelizmente, poucas respostas que explicam.

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Nós mulheres estamos cansadas de explicações vazias para as brutais violências que sofremos.

Quando estamos no metrô ou no ônibus, temos que estar atentas ao encostar dos homens em nossas bundas.
Quando estamos num bar, temos que nos certificar que nenhum homem vai colocar qualquer coisa em nossas bebidas.
Quando estamos voltando às nossas casas, de madrugada, jamais podemos voltar sozinhas, pois, sim, corremos o risco de sofrer um estupro.

É ainda mais cruel com as crianças e adolescentes, já que muitas delas não tem ideia do que significa um assédio mesmo vindo do padrasto, do primo, do avô, do amigo da família.

A sociedade que ria de um homem bater numa mulher com uma raquete de tênis é a mesma que acha normal crianças engravidarem porque foram estupradas.
Acha errada a lei que concede o direito à criança a não continuar com a gravidez.
Acha errada também é a adolescente que depois de sofrer uma violência sexual numa festa quer interromper a gestação.

“Quem mandou vestir um short curto?”
“Quem mandou estar quase nua?”

É assim que muitos pensam, os conservadores, os bastiões da moral e da ordem da sociedade. E as mulheres cristãs, iguaizinhas à personagem Perpétua, irmã da Tieta, da novela exibida na Rede Globo em 1989. Estão preocupadas em extinguir o feminismo, a falta de respeito em nome da família e de Deus, mas na verdade são mulheres hipócritas.

Nas últimas semanas, vimos um procurador agredir com socos e chutes uma procuradora. Dias depois, ele pediu desculpas e disse que se sentiu incomodado com a presença de várias mulheres na sala. As cenas dessa agressão foram mostradas nos principais jornais do país. Houve mensagens em solidariedade à procuradora nas redes sociais.

Juíza Joana Ribeiro Zimmer, que tentou coagir uma criança de 11 anos a ter um filho, foi uma das personagens da semana de retrocessos para os direitos reprodutivos e das mulheres. (Foto: Reprodução)

Uma atriz teve que vir a público contar um estupro que sofreu porque um colunista publicou que a artista com 21 anos sofreu uma violência sexual, engravidou e entregou o bebê para adoção. Essa história veio à tona porque uma criança de 11 anos foi estuprada no interior de Santa Catarina, e a juíza não deixou a menina realizar um aborto legal, como está na lei, como noticiou o The Intercept. Esses dois casos foram amplamente comentados no Twitter e nas demais redes e ganharam espaço nos telejornais. Talvez seja o momento para muitas pessoas que consomem ‘notícias de famosos’ refletirem que crime não é fofoca.

Klara Castanho não pode ser apedrejada porque entregou seu bebê à adoção.
A menina de 11 anos não pode ter seu direito negado.
Uma criança não pode ser mãe.
Um estuprador não pode ser pai.

Estamos cansadas de falar o óbvio.

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