Nossos pais e suas histórias

Peço licença a você que lê e gosta da minha coluna para contar uma coisa. Acho que vocês irão se identificar. Nós, filhos, achamos que sabemos quase tudo dos nossos pais, de tanto ouvir histórias da infância ou adolescência deles, uma época que nem pensávamos em nascer.

Pois bem, não sabemos quase nada dos nossos pais, essa é a verdade. Começo a pensar assim quando um dia meu pai, do nada, enquanto almoçávamos, eu animada com a minha viagem a Salvador, diz : “Eu fui à um show de Secos & Molhados na Bahia”.

Fiquei sem palavras, era a primeira vez que meu pai me contava aquilo. “Ué, pai, e você só conta isso agora?”. E olha que eu sei da admiração que ele tem pelo Ney Matogrosso, ele sempre fala quando o Ney aparece na TV: “Ele é um grande artista”.  

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Imagino que vocês também já saibam algumas histórias da mãe ou do pai de vocês, às vezes já sabem até de cor, de tanto que já ouviram. Eu cresci ouvindo que meu pai jogava bola quando jovem todos os fins de semana. Recentemente, ele reuniu os amigos da pelada num grupo de WhatsApp e a cada áudio chamavam meu pai de Rei de Roma.  

“Por que é o Rei de Roma, pai?”  

“Eu jogava na posição do Paulo Falcão, conhecido por ser o Rei de Roma nos anos 80”.  

“O Falcão, comentarista da Globo?” 

Mais um jogador que não vi jogar porque eu nasci em 1990. E por falar no ano em que nasci, minha mãe também tem muita história ainda para contar. Pasmem leitores, que outro dia, também num almoço – é sempre assim – minha mãe fala “Eu mesmo estando grávida fui com seu pai ver os fogos no fim do ano”. Certamente era o Réveillon de 1989, alguns dias depois, em janeiro de 1990, eu chegava ao mundo. “A gente viu a Gal Costa”. Meu pai, que gosta de contar aventuras, relembra : “Você até deu entrevista para a Band”. Era a primeira vez que eu ouvia aquilo, mais de 30 anos depois. Fiquei pensando depois que apareci na barriga da minha mãe na TV e eles só me contam isso agora.  

Há algumas histórias, leitores, preciso dizer isso a vocês, que não são muito claras. É engraçado, para falar a verdade. Meu pai tem uma admiração pela Bahia, mas quando ele fala que meu nome surgiu na cidade de Ilhéus, minha mãe faz uma cara feia e muda de assunto. Essa história vai ser difícil de saber, e só o que posso imaginar é que curiosamente, a personagem Gabriela, de Jorge Amado, era de Ilhéus. Talvez tenha sido uma namorada de meu pai ou também a sua admiração por Sônia Braga, ou as duas coisas, desconfio eu.  

O jogador Falcão, quando jogou na Roma-ITA e se tornou ídolo do clube da capital italiana (Reprodução)

Como se não bastasse ser pega de surpresa com histórias que meus pais só contam 30 anos depois do meu nascimento, quando a segunda versão da novela Pantanal estreou na última segunda-feira, na TV Globo, eu estava em frente a televisão, algo raro, confesso, esperando a nova versão estrear. É mais uma novela que não assisti, pois estreou na Manchete no ano em que nasci, e minha mãe mais uma vez, conta uma aventura: “Eu assistia a Juma Marruá amamentando você, às vezes você demorava a dormir e eu perdia todo o capítulo”.  

Meus pais e suas histórias…  

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2 thoughts on “Nossos pais e suas histórias

  • 1 de abril de 2022 em 19:51
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    Gabriela , seus pais vivenciaram uma época rica da nossa música. Os melhores cantore nossos se destacavam nesta época. Ipanema parecia a calçada da fama: Milton, Tom Jobim , Vinicius de Morais e muitos outros. Ve- los na praia também era comum.
    Futebol, queima de fogos e segurança. Ñ havia arrastão nas praias nem os constantes assaltos nas ruas lim- pas. Morava em Ipanema nessa época. Saudade. Bom você conversar com eles. Vi o Nei Matogrosso passeando com uma micro sunga à beira mar.

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  • 1 de abril de 2022 em 19:56
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    Fascismo ñ, corrupto com pele de cordeiro também ñ. Tenho vivas em minha mente tudo o que aconteceu no Brasil e o que acontece agora. Tudo muito triste!!!

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