Os anos de 1990 e o 2021

A partir do início dos anos 2000 não faltou carne no prato da minha família nem no de muitos brasileiros. Foi um tempo em que vi muitos porteiros, como meu pai, comprando carro, viajando de avião, com seus filhos em universidades públicas e privadas…

Hoje, duas décadas depois, tudo isso mais se parece com um breve sonho. A realidade agora é bem diferente, bem anos de 1990.

Eu nasci em 1990, pós Constituição de 1988, que permitiu meus pais votarem em 1994 e eu aos 16 anos. Faço questão de afirmar que vim ao mundo após a promulgação da última Constituição em vigor, com um misto de raiva e desespero, já que a democracia brasileira nunca foi tão atacada como nos últimos tempos.

Como nada na vida é perfeito, infelizmente, não vi o Mundial do Flamengo em 1981 e a Copa do Mundo de 1982. Inclusive, essas são as únicas reclamações que faço aos meus pais. Sempre pergunto porque eles só me fabricaram em 1989.

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Meu pai responde que foi neste ano que ele conseguiu um emprego estável. Nasci numa época em que o país respirava os ares de uma recém-democracia. Depois de ler na faculdade, K. Relato de uma busca, do Bernardo Kucinski, imagino que, nessa época, para muitos era insuportável o silêncio dos crimes ocorridos nos anos de Ditadura Civil-Militar.

Quantas vezes, quando o assunto é os excessos dos militares, vemos alguém dizer, “é melhor esquecer o passado e olharmos para o futuro”? E, de fato, o Brasil só quis olhar para o futuro. Os anos 90 foram difíceis para muitas famílias de baixa renda, como a minha.

Meu pai e eu, em meados dos anos de 1990, quando o Brasil vivia situação econômica parecida com a de hoje. Créditos: Arquivo Pessoal

Eu só não poderia imaginar que o 2021 seria pior, e que a fome voltaria para as casas dos brasileiros mais pobres. Quero deixar claro que, em 2018, o então candidato Jair Bolsonaro, não me enganou. Eu já sabia que o país correria perigo caso ele vencesse.

Bolsonaro só enganou aqueles que se deixaram enganar. Jamais se deve subestimar quem elogia torturadores.

E é preciso dizer que, com o intuito de normalizar o bizarro que Bolsonaro representava, boa parte da imprensa embarcou no canto da sereia de Paulo Guedes. Não adianta fazer cara de paisagem agora: não houve, nem nunca haverá, verniz que possa fazer de Bolsonaro um sujeito aceitável. Até nisso o “Posto Ipiranga” falhou. É um medíocre.

Minha mãe conta que, em 1994, ano que meu pai começou a trabalhar no prédio onde até hoje moramos, ela contava os dias para o salário dele chegar. Mas enquanto não chegava, um dia ela cozinhou uma salsicha e um miojo para mim, e dividiu um ovo com meu pai. Isso foi há 27 anos, e é o que está acontecendo hoje em muitas casas brasileiras. Casas dos mais pobres, dos que ficaram sem emprego desde 2020, dos que nem sequer recebem o auxílio de R$ 200.

Se quando criança eu só poderia comprar uma caixa bonita azul com biscoitos amanteigados nas compras de fim de mês, pois era caro, em pleno 2021 nem arroz e feijão, pais e mães de famílias estão comprando. Nas hipóteses menos dramáticas, fazem malabarismo com o pouco dinheiro que têm para não faltar o básico.

O colunista Antônio Prata escreveu no último dia 15 de agosto, na Folha: “A situação política, social e ambiental é muito grave. Precisamos trazer os adultos pro debate, não é hora de molecagem”.

Concordo e vou além: precisamos que os adultos também se perguntem para onde o país está indo. A resposta é a pior possível. O presidente que desgoverna insiste em levar o país para os trilhos de um autoritarismo que lembra o nazifascismo do século 20, embora estejamos no 21.

Desde 2019, dia após dia, o Brasil é destruído enquanto apoiadores do governo insistem em defender quem nos mata, mata nossas esperanças e nos deixa a mercê em plena pandemia. Defendem seu “mito” em razão do delírio de um comunismo que nunca existiu no Brasil.

Um verdadeiro deboche! Deboche como a fome. Deboche como o número de mortos da pandemia, como a falta de vacina, como Bolsonaro e como Paulo Guedes.

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