Tudo em volta está deserto. Tudo vai mal, tudo

A música Como 2 e 2, escrita por Gilberto Gil e Gal Costa no período da Ditadura Civil-Militar no Brasil, não poderia ser mais atual. O trecho: “Meu amor, tudo em volta está deserto, tudo certo”, traduz perfeitamente os dias em que vivemos.

Está tudo deserto – pessoas morando nas ruas, mais de 14 milhões de desempregados e mães e pais de família buscando comida nos lixos e fins de feiras – e está tudo certo para os banqueiros, para as cinco famílias que mandam na imprensa brasileira e para o presidente Bolsonaro. A continuação “Tudo certo como dois e dois são cinco”, pode parecer uma afronta à lógica matemática, porém se encaixa com o que mais o presidente e seu filho, Carlos Bolsonaro, querem: distorcer os fatos e propagar mentiras. Para eles, sem o menor constrangimento, dois e dois são cinco.

Já dizia o ministro de propaganda nazista, Joseph Goebbels: “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. Tática hoje que é aplicada por Steve Bannon, ex-assessor de Donald Trump e estrategista político, admirador e guru, podemos dizer, de Jair Bolsonaro. Para Bannon é preciso destruir para construir. E o presidente brasileiro bebe nesta fonte: destruir as nossas riquezas naturais, as instituições, a cultura, as universidades, as condições de vida do povo é algo que lhe dá prazer, e isso ele não faz questão de esconder. Lembremos o que foi e é feito e dito em relação ao combate à Covid-19 e à produção e distribuição das vacinas.

Estou de acordo quando alguns jornalistas dizem que as práticas deste governo são e fortalecem o nazismo no Brasil. Basta ver o que foi dito por Bruna Morato, advogada dos médicos da Prevent Senior, na CPI da Pandemia: “óbito também é alta”. Quantos pacientes morreram sem oxigênio ou pelo uso da Cloroquina, em um episódio que em nada deve à lembrança das mortes nas câmaras de gás ou às atrocidades feitas pelo Dr. Mengele?

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Regimes totalitários fazem despertar o que há de pior nas pessoas. No caso do Brasil, com a democracia enfraquecida e com um presidente que não tem a capacidade intelectual e moral de ser nem síndico de condomínio, seus apoiadores têm o aval de revelarem a podridão de pensamentos que esconderam há muitos anos, enquanto uma turma de canalhas, como Paulo Guedes, lucra com a destruição do país.

Cultura e universidades estão no deserto de investimentos, ouso afirmar, por um fato muito simples: temos um presidente incapaz de ler e entender um texto. Deve ter sido um estudante medíocre em Português e História, e daí seu ódio pelas Humanidades.

O deserto também é miséria. A alta dos preços dos alimentos é perversa, e isso é ainda mais absurdo se pensarmos que o Brasil, que tem o tamanho de um continente, produz alimentos, mas não para os pratos dos mais pobres.

Dito isso tudo, cabe a pergunta: quem está feliz de pagar quase R$ 8 na gasolina? Os eleitores iludidos por Bolsonaro? A elite econômica que o bancou? O país anda para trás e continua, mas uma hora a conta chega para todos. O sociólogo Jessé Souza não poderia estar mais certo quando deu o título “A elite do atraso” a um dos seus mais famosos livros sobre o Brasil. É uma classe que pouco se importa e despreza o país onde nasceu.

Gostaria de terminar com mais um trecho da música escrita por Gil e Gal: “Eu sigo apenas porque gosto de cantar. Tudo vai mal, tudo”.

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