Uma final de Libertadores ao lado do meu pai

Que me perdoe os leitores que não torcem para o Flamengo, mas a coluna de hoje irá falar sobre o Clube de Regatas do Flamengo, pois é quase impossível não falar de um time que vai para mais uma final de Libertadores da América. Mas se você, leitor, que ama futebol, porém torce para outro time, eu te convido mesmo assim a ler este texto.

A final marcada para o próximo sábado, dia 27 de novembro, contra o Palmeiras, será especial para mim porque estarei ao lado do meu pai. Em 2019…ah, 2019… que ano para os flamenguistas…. Pois é, nesse ano, eu cruzei o Atlântico para estudar no país de Cervantes, justo na semana do primeiro jogo da semifinal contra o Grêmio. Eu estava muito feliz, mas eu sabia que, caso o Flamengo fosse à final, eu estaria longe. Portanto, independente do resultado de sábado, o mais importante é que estarei ao lado do meu pai. Será a sua terceira final e a minha segunda.

O ano de 2019 foi o ano da minha primeira final de Libertadores. Penso que é importante falar desse ano, por algumas razões. Além de títulos e goleadas, vimos um bom futebol que há muito não se via ser jogado no Brasil e num ano muito difícil para o país: primeiro ano de um governo fascista. Ligar a televisão na quarta à noite ou no domingo à tarde representou uma alegria para muitos torcedores e apreciadores de um futebol bem jogado.

Diante de tanto retrocesso e flertes com o autoritarismo em discussões antidemocráticas sobre “uma possível ruptura” ou “não estranhem se tivermos um AI-5”, o clube da Gávea foi o ópio para muitos brasileiros. Eu fui a alguns jogos no Maracanã e vi estádios cheios, pessoas que se juntavam com amigos para pagar o plano mais caro do programa sócio torcedor.

É preciso dizer, e já não é de hoje, que os mais pobres foram excluídos dos estádios modernos e arenas. E eu vi o esforço dessas pessoas para estarem mais perto do time, muitos até desempregados, mas com muito sacrifício conseguiram um ingresso. O meu pai deixou de ir ao Maracanã depois do fim da geral e eu tive que pedir muito para que ele fosse em 2019. Cheguei a dizer: “Mas pai, você vai deixar de ver o Arrascaeta de perto??”.  E funcionou.

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O time encantava e despertava comentários estapafúrdios em alguns canais de televisão. O fato de a diretoria do Flamengo ter contratado um técnico estrangeiro causou incômodo em muitos comentaristas, alguns desses amigos de técnicos brasileiros e que não querem enxergar até hoje a mediocridade dos trabalhos apresentados em muitos clubes por onde já passaram. O jornalista e comentarista Mauro Cezar Pereira chamou-os de ‘Clube do vinho’. E por meses foi assim até atingir o ápice da imbecilidade e da hipocrisia quando o técnico Jorge Jesus disse numa coletiva que quem joga o melhor futebol é que está na frente do Campeonato Brasileiro, e, portanto, era o Flamengo. O nível dos argumentos em defesa dos técnicos brasileiros desafiava a nossa inteligência.

É inegável que as contratações de Pablo Marí, Gérson, Felipe Luís e Rafinha foram importantes, porém sem o trabalho do técnico – visão tática, treinamentos e conversas com os jogadores – o time não jogaria o que jogou. E jogou sabendo o que fazer com a bola, após um gol continuava em busca de mais e não dava espaço para o adversário. Um exemplo do trabalho de Jorge Jesus é a transformação do volante William Arão: de odiado pela torcida a um dos principais jogadores do elenco. Arão era muito contestado pela torcida, era um jogador que perdia a concentração rapidamente e gostava de enfeitar. Com a chegada do português, o volante passou a jogar firme e seguro. Até a torcida passou a dizer “Tá bem Arão!”.

Gabriella com o pai: sábado assistirão a primeira final de Libertadores juntos (Arquivo Pessoal)

A imprensa brasileira não ajuda o futebol brasileiro, com comparações infundadas e poucas críticas. Dois anos depois do título da Libertadores e do Campeonato Brasileiro, o Flamengo ainda conta com grandes jogadores, porém já não tem um técnico com uma visão de um futebol moderno e competitiva como antes. Ver alguns jogos sob o comando do técnico Rogério Ceni foi sofrível, o time já não era veloz, mesmo com um sistema defensivo sólido. A diretoria precisa mais uma vez buscar fora do país um novo treinador.

A final da Libertadores contra o Palmeiras, mais uma final brasileira, será muito diferente da final em Lima. Já não veremos aquele futebol, mas eu estarei feliz ao lado do meu pai, na vitória ou na derrota.

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