Viajar não é para os mais ricos

* Por Gabriella Figueredo
No último texto, contei que um dos motivos de ter escolhido a Espanha para fazer o mestrado foi um livro que ganhei de presente de aniversário. Recebi muitas mensagens de leitores que são também fãs do autor Carlos Ruiz Zafón.

Quando entrevistei minha ex-colega da faculdade, a Anna Paula, na última quinta-feira no programa Elevador de Serviço, na TV Democracia, ela contou que achou A sombra do vento numa caixa de livros usados. Folheou-o e começou a ler e foi uma leitura muito especial, foi como ter encontrado um tesouro perdido. Acho que muitos leitores em diversos países se sentiram como a Anna Paula.

Em busca de saber como o país de Zafón via os seus livros, se era um escritor estudado nas universidades espanholas, pensei em me candidatar a uma bolsa para estudar seis meses em Madri. Isso foi em 2017. Contei para a minha amiga de alma, enquanto tomávamos um café, e ela logo ficou feliz. Eu comentei que nunca tinha ido para muito longe, só uma vez fui ao Chile correr uma meia maratona. Um pouco surpresa, ela me perguntou o porquê. Eu respondi que meus pais não tinham o costume de tirar férias e viajar. E completei “talvez a gente pense que viajar é algo só para os ricos e não para nós”.

Leia também:
“Prazer, sou a filha do Brasil”
O Brasil é terra indígena!

Depois que falei, parei e pensei uns segundos e fiquei surpresa também com o que eu havia dito. Viajar é só para os ricos, assim eu pensava. Quando recebi um e-mail com uma resposta negativa, chorei porque eu queria muito, achei o resultado injusto. Lembro que minha mãe me disse para eu não lamentar um não, afinal, quantos nãos ela e meu pai já haviam recebido na vida? Comecei a estudar espanhol sozinha e minha amiga de alma via que eu estava ainda chateada com a negativa da universidade na Espanha. Passamos a tomar café quase todas as semanas, era quase como uma terapia. E conversamos sobre o que eu havia dito, que viajar era apenas para uma classe, os mais ricos.

Eu cresci num bairro de classe média alta, onde era muito comum nos meses de dezembro e janeiro as pessoas viajarem. Lembro que ganhava de presente bonecas Barbie trazidas da Disney. O mundo mágico do Walt Disney é o primeiro destino de muitas crianças, ricas, é claro. E quantas vezes ao brincar no play com crianças filhas de moradores, eu já não escutei: “vamos a Disney”. Por isso, cresci achando que viajar de avião não era para a minha classe. Não sei se eu fui a única a pensar assim, mas certamente essa minha visão era exatamente o que a elite queria que pensássemos.

Quando o aeroporto virou rodoviária incomodou e muito; quando uma filha de uma trabalhadora doméstica ou porteiro, como eu, chegou à universidade, incomodou muito mais. Ninguém prestou atenção quando, no processo de impeachment da ex-presidente Dilma, a estudante de medicina Suzane da Silva discursou num encontro apresentando um cartaz: “A casa grande surta quando a senzala vira médica”. Guardo essa frase até hoje, pois representa muito, é grito engasgado nas nossas gargantas.

No cartaz de Suzane em 2016, o grito engasgado nas nossas gargantas. (Reprodução/Internet)

Tendo em mente o que a minha mãe me recomendou, para não desistir, continuei estudando, até que uma nova oportunidade surgiu em 2018. Não criei expectativas quando mais uma vez me candidatei a uma bolsa para estudar espanhol. E veio uma resposta positiva. Contei para a minha amiga de alma e ela me disse uma frase que guardo com muito carinho, “se permita sonhar grande”.

* Gabriella Juvenal Figueredo é filha de Jerônimo Figueiredo e Maria José Juvenal, um porteiro e uma trabalhadora doméstica. Graças às políticas de inclusão, cursou Letras na PUC-RJ e História da Arte, na Universidade de Navarra (ESP). Atualmente apresenta o Elevador de Serviço, programa da TV Democracia, no Youtube. Fala sobre a vida aqui no Lado B, às quintas-feiras.

A partir de R$ 2 por mês, você colabora com a produção de mais conteúdo nas plataformas do Lado B do Rio. Seja Padrim ou apoie no PicPay e conheça as metas e benefícios.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest