A árdua tarefa de reconstruir o Brasil (ou um texto sobre amor e esperança, apesar de tudo)

O Brasil se tornou uma máquina de sugar esperanças. Nos últimos anos, com tantos retrocessos sociais e políticos, a falta de ânimo em relação ao futuro acabou se tornando algo presente e constante para muitas pessoas da esquerda. Porém, mesmo os mais pessimistas sabem de algo: Bolsonaro vai passar. Como? Quando? Ninguém sabe ainda, mas é certo que nenhuma tormenta dura para sempre. E, quando essa desgraça passar, nos sobrará um vasto terreno destruído para ser revitalizado. Teremos a dura tarefa de reconstruir o Brasil. 

Comecei a pensar nisso justamente porque, depois de tanto tempo, eu finalmente tenho enxergado alguma luz no fim do túnel. Não existe um motivo único para isso. É uma junção de vários fatores. A impopularidade crescente do Genocida da República; as pesquisas que mostram Lula de forma consistente liderando as pesquisas eleitorais; o tensionamento de parcela considerável da esquerda puxando os debates para um combate não só ao fascismo, mas também ao neoliberalismo que nos trouxe até aqui; a onda vermelha na América Latina (recentemente exemplificada no Peru e no Chile); o nosso povo querendo sim vacina mesmo depois de tanto bombardeio de desinformação; etc. Com tudo isso – que é frágil e pode mudar em pouco tempo, eu sei – tenho pensado, por agora, que as coisas mudarão. E, se vão mudar, a gente precisa começar a pensar no que faremos para tentar transformar a realidade. 

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Transformar a realidade que permitiu que uma figura abjeta como Bolsonaro fosse criada e fincada na nossa política. Transformar a realidade que naturaliza a miséria, a fome, a desigualdade, a violência do Estado e da burguesia. Transformar a realidade que encarcera militantes e ativistas, enquanto corpos negros e trans tombam no chão. Transformar a realidade que segue perseguindo e criminalizando úteros e escolhas. Transformar a realidade que nos faz ter como fiéis companheiros, nos últimos anos, a angústia e o desânimo. Transformar a realidade para que vidas sejam, enfim, colocadas acima do lucro. Como diz o companheiro Thiago Ávila, do Distrito Federal, esse é o desafio dos nossos tempos. O desafio da nossa geração. 

Teremos a dura tarefa de reconstruir o Brasil (Luiza Prado/JC)

Nada disso vai ser fácil, nada disso vai ser simples. E, como disse, tudo pode mudar de uma hora para outra. O que já está ruim pode piorar, inclusive. O Brasil é assim, predador e imprevisível. Mas o Brasil é também inspirador e muito muito muito teimoso. Temos visto isso nas Olimpíadas, onde as/os atletas, muitos absurdamente sem apoio e patrocínio, nos arrancam um sorriso do rosto, lágrimas dos olhos e um orgulho que estava escondido no peito. Pausa. Agora tô chorando um pouquinho. Juro que não estou alcoolizada enquanto escrevo, é que dói novamente ter alguma fé nas possibilidades dessa terra. Essa terra que sofre golpes; que tá sempre ameaçada por ricos e por militares; que é bombardeada por uma mídia liberal cínica e conivente com a tragédias; essa terra que é símbolo de tanto sangue derramado. Dói olhar para essa terra com bons olhos. Mas isso é o que nos cabe. E isso não tememos, nem titubeamos. Amar o Brasil é uma coisa bonita pra caramba, apesar de tudo!

E pra transformar o Brasil, aos trancos e barrancos, a gente não vai precisar só de garra e de coragem. Vamos precisar de amor também. 

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