Brasil, um país nazista

Escrevo este texto, minha primeira coluna do ano aqui no Lado B do Rio, tocada por uma série de incômodos, que se colocam em camadas, em relação ao Brasil. Na segunda-feira, uma parcela expressiva da população demonstrou sua indignação, ao menos na internet, com a fala de Monark, apresentador do videocast Flow, um dos mais assistidos do país, onde ele defendeu a criação de um “partido nazista” brasileiro. 

O que Monark sugeriu não é bem uma novidade. O Brasil já teve um “partido nazista”, fundado em 1928, na cidade de Timbó, em Santa Catarina. O tal “partido” (e uso aspas porque, para mim, é inadmissível que um grupo de extermínio e supremacia seja colocado no mesmo patamar de organizações políticas sérias dentro de regimes supostamente democráticos) durou oficialmente até 1938 e contou com cerca de 2.900 membros, segundo matéria do TAB UOL. 

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Ou seja, o que Monark sugeriu não é algo novo, mas sim o revival de um tempo histórico sombrio, que causa vergonha a diversos povos e nações e que já esteve, de forma oficial, no Brasil. Porém, apesar da indignação gerada, Monark não está só. Desde 2018, ano em que Bolsonaro foi eleito, o Brasil teve um crescimento de 270% em grupos nazistas. São cerca de 530 células espalhadas pelo país. São coletivos que se sentiram fortalecidos diante da eleição de uma figura da extrema-direita. Figura essa que agora nos governa e que nunca escondeu a simpatia por regimes fascistas

Na semana passada, o Brasil também se chocou com o brutal assassinato do jovem congolês Moïse Mugenyi, linchado por um grupo de homens na Praia da Barra, ao cobrar o pagamento por um trabalho que tinha feito. Segundo levantamento do O Globo, nas últimas três semanas ocorreram 12 tentativas de linchamento nas praias do Rio. Linchamentos já não chocam mais. Moïse foi uma exceção, assim como a fala de Monark, que causou choque enquanto outros episódios de apologia ao nazismo são ignorados e naturalizados, inclusive pelas instituições. 

Em junho de 2021, a 2ª Promotoria de Justiça do Ministério Público de Santa Catarina se manifestou pelo arquivamento da investigação sobre Wandercy Antonio Pugliesi, professor de história, que tinha decorado sua piscina com uma suástica gigante no fundo. E em outubro do ano passado, o juiz Marcus Vinícius Reis Bastos, da 12ª Vara Federal de Brasília, absolveu Filipe Martins, assessor da Presidência da República, que em março fez um gesto característico de supremacistas brancos durante uma sessão do Senado. 

O imigrante Moise, mais um corpo negro assassinado no Brasil (Reprodução)

Apologia ao nazismo é crime no Brasil. Pelo menos na teoria, não na prática. 

Provavelmente nada acontecerá com Monark, pois a barbárie está naturalizada. A indignação às vezes surge, porém logo se esvai. Outro crime acontece e substitui as atenções e os olhares da opinião pública. Assim como o horror a que foi imposto Moïse, que em breve será substituído pelo horror imposto a outro corpo negro. O Brasil é um carrossel de crueldades colocadas sobre os corpos negros, indígenas, femininos e LGBTs. O carrossel vai girando, girando, sem parar, sem fim. 

O Flow, comandado por Monark e por Igor, seu parceiro de trabalho e seu cúmplice diante de crimes verbalizados, perdeu patrocinadores, mas se mantém de pé e, em breve, terá recuperado o dinheiro perdido. O liberalismo é a antessala do fascismo e o dinheiro sempre fala mais alto. Não importa o sangue derramado, não importa a morte de inocentes, não importa a crise civilizatória, o que importa aqui é o lucro. 

O Brasil hoje, sob Bolsonaro, é um país nazista. E nada indica que deixaremos de ser no curto prazo. As células estão espalhadas e se radicalizando. Movimentos negacionistas, como os antivax, estão crescendo e se fortalecendo, inclusive com mães e pais optando pela crueldade de não vacinarem seus filhos. Também são inúmeras as ameaças de atentados e tentativas de golpe durante as eleições. Eles são poucos, é verdade, mas são barulhentos. Hoje, no Brasil, já são mais de 1 milhão de pessoas com licenças para possuir armas. O cenário está colocado e ele não é bonito. 

Bolsonaro será derrotado nas urnas. Mas tudo que ele representa, e tudo que ele trouxe para a superfície, não será derrotado pelo voto. Voto é democracia, democracia é diálogo e com nazistas não se dialoga. Nazista se combate. 

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One thought on “Brasil, um país nazista

  • 9 de fevereiro de 2022 em 14:42
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    Muito bom Lana.

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