Chacina. No Jacarezinho foi uma chacina

A semana passada foi uma das mais tristes desde o começo da pandemia. O Brasil ainda estava lidando com a morte de Paulo Gustavo – a pessoa mais famosa e o artista mais popular a ser vítima da covid no Brasil – quando fomos atravessadas por outra tragédia, que nos lembrou mais uma vez que o risco de ser brasileiro não está apenas em morrer de covid, mas também na possibilidade de morrer pela violência urbana e, mais precisamente, a violência que parte do próprio Estado. 

A última quinta-feira começou com a notícia da morte de um policial na favela do Jacarezinho, o que logo se desenrolou na notícia de que outras 23 pessoas haviam sido assassinadas. Agora o número total de vítimas, incluindo o policial, está em 28. 

Embora diversos veículos de comunicação definam o episódio como uma “operação policial”, o que aconteceu foi uma chacina. Não existe outra palavra que possa definir a morte de tantas pessoas de um mesmo grupo social no mesmo território, em espaço tão curto de tempo. 

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Eram homens pobres, favelados e negros. Isso não é um detalhe ou coincidência. Eles foram mortos justamente por serem pobres, favelados e negros. Não teriam sido mortos se fossem moradores do Leblon, da Gávea ou da Barra. 

O que aconteceu foi o que popularmente se conhece como uma “operação de vingança”. Sempre que um policial morre numa operação numa favela, o objetivo da corporação naquele local deixa de ser cumprir mandados de prisão ou alguma apreensão de drogas, e o foco se torna apenas um: matar o máximo possível. E, obviamente, se escolhe matar homens adultos e jovens negros, para que a justificativa de “eram todos bandidos” possa se sustentar no imaginário racista e elitista da população. 

Parte da favela do Jacarezinho, uma das maiores do Rio de Janeiro (Leo Lima/Cafuné na Laje)

Não tem como negar que, talvez, alguns dos mortos tivessem passagem pela polícia e envolvimento com o tráfico. A questão é: isso não justifica que essas pessoas sejam executadas. Não é assim que as leis funcionam ou deveriam funcionar. 

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Há quem diga que não existe pena de morte no Brasil. Mas eu penso que, mesmo se tivéssemos uma pena capital estabelecida, execuções dessa forma não se justificariam. Uma pessoa condenada à morte precisa ser julgada antes, não ser morta pela polícia no seu bairro sem nenhuma chance de defesa. O que acontece no Brasil, mais precisamente nas favelas do estado do Rio, é muito pior do que pena de morte. É terrorismo de Estado. 

A polícia alega “confronto”. Que confronto é esse onde só um lado morre? Isso é impossível. Vemos a mesma lógica implantada nos ataques israelenses à Palestina. A grande mídia fala de “confronto”, porém ao olharmos os mortos vemos que 90% deles são palestinos e quase metade são crianças. A palavra “confronto” se tornou uma justificativa para massacres e genocídios.

O que aconteceu no Jacarezinho precisa ser tratado e chamado da forma correta: CHACINA.

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