Opinião: Gabriel Monteiro é sintoma grave

Já falei algumas vezes sobre como estou cansada. São vários cansaços juntos, acumulados, se sobrepondo. Agora, nesse momento, meu cansaço se chama Gabriel Monteiro, o vereador carioca acusado de estupro e de diversos outros tipos de violência, como assédios sexual e moral. 

Eu realmente não queria ter que escrever o nome dessa pessoa, falar dessa pessoa e nem mesmo ter que pensar nessa pessoa. Mas seria impossível. Vivendo nessa cidade, trabalhando onde trabalho, não tem como escapar dessa realidade doentia onde o pior da sociedade fica o tempo todo diante dos meus olhos. 

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Gabriel Monteiro é a personificação do que existe de pior. O machismo, a violência política, o ódio de classe, o oportunismo, o não reconhecimento de si próprio diante do espelho. É a materialização do vil e da covardia. E é nesse mundo, onde esse mal ganha forma, visibilidade, dinheiro e votos, que eu vou criar minha filha. Isso tem me consumido e me constrangido. Como vou explicar pra ela a existência e a força desse tipo de gente, que vai contra tudo que ensinamos enquanto “bom”, enquanto “honesto”, enquanto “justo”?

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Não tenho a pretenção, nem a mínima vontade, de viver no Rio para sempre. Não é o lugar onde gostaria de criar minha filha. E, mesmo ainda sem filhos, não é onde eu quero estar, permanecer, me fixar. O Rio, que tanto seduz, causa dores profundas justamente pela decepção que só ele é capaz de causar. Mas quando chegar esse dia, de deixar essa cidade, isso não pode ser uma ilusão de que tudo se resolveu, que tudo ficou bom. Gabriel Monteiro é um sintoma grave do que já está espalhado por todo o Brasil. É preciso buscar os lugares que nos fazem bem, que nos proporcionam bem estar, mas sem ilusões de escapes geográficos e individuais. 

Chico Alencar (PSOL) e demais vereadores após a reunião do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar da Câmara do Rio (Renan Olaz/CMRJ)

Nosso país tá lascado. Recuperar tudo será difícil e também será insuficiente. Não basta recuperar, temos que avançar, e ainda não sei como faremos isso. Mas não tem outro jeito. Quero um Brasil melhor, quero viver num Brasil onde seja possível viver. E isso é sim sobre minha filha, mas também sobre todas as filhas, sobre todas aquelas que estão chegando, que ainda chegarão. Quero um Brasil vivível por todas elas.

* N. do E.: Lana de Holanda sairá de licença-maternidade por alguns meses. O Lado B deseja boas-vindas e saúde pra Teresa!

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