Sobre ser trans e esperar um filho

O texto de hoje, na coluna do Lado B do Rio, surge e é atravessado por algo pessoal. Não tem outro assunto que esteja ocupando mais a minha mente do que o fato do Edu (meu companheiro) e eu estarmos esperando um filho ou filha. Quero compartilhar só um pouquinho dos pensamentos que passam nesse momento na minha cabeça. 

Como já falei outras vezes, ser trans é viver num mundo que te espera pronta para a morte, sem perspectivas, sem planos, sempre sujeita a alguma tragédia. Sobreviver é a rotina e viver parece um luxo. Mas não é. Viver é o básico, viver é o mínimo. 

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E no meio desses pensamentos, sobre o que significa uma gestação no meio de tempos onde a vida anda tão frágil e tão escassa, me deparei com dois fatos: 

  1. Ontem foi Dia das Crianças e circulou nas redes um vídeo (muito bem produzido) que comparava Bolsonaro com uma criança;
  2. Na semana passada viralizou no Twitter um post de uma feminista radical dizendo que se recusa a dar parabéns quando alguma amiga engravida, pois engravidar é – segundo ela – algo como um tipo de tragédia ou tristeza. 

Primeiro, é impossível não pensar que vivo numa sociedade onde alguém com muito dinheiro prefere produzir um vídeo sobre Bolsonaro “agir como uma criança” do que falar, talvez, sobre os órfãos da pandemia. São mais de 100 mil crianças que se tornaram órfãs pela Covid e pela política genocida de Bolsonaro. Ele não é uma criança, ele massacra crianças. 

Segundo, impossível não pensar também na tal vertente feminista que reduz mulheres a uma genitália, descartando tudo que é diferente, tentando instrumentalizar o debate materno e ao mesmo tempo mostrando o quão egoísta conseguem ser inclusive entre elas mesmas. 

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Estamos num mundo e num tempo onde as crianças são toleradas. Encaradas, na maioria das vezes, como um peso, como um problema. Um mundo também onde algo revolucionário, como o feminismo deveria ser, acaba enredado por grupos conservadores infiltrados, que tentam limitar e resumir algumas mulheres, enquanto exclui e reforça a violência com outras. Esse não é um mundo agradável para se ter filhos. Mas esse não pode ser um mundo que impeça as pessoas de quererem ter filhos, da forma que acharem melhor em suas vidas. 

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A maternidade e a paternidade precisam ser escolhas. Mulheres cisgêneras, homens trans e pessoas não binárias com capacidade de gestar devem ter autonomia sobre seus corpos. E precisamos que a sociedade respeite e acolha aquelas pessoas que decidem não ter filhos, ao mesmo tempo que respeite e acolha aquelas que decidem ter, principalmente quando estamos falando de grupos que socialmente não são entendidos como “capacitados” ou “aptos” para formarem famílias, como as pessoas LGBTs. 

Eu sou uma mulher trans, vou ser mãe. Edu é um homem trans, vai ser pai. Temos lésbicas, gays, bissexuais, diversas pessoas que estão criando suas próprias famílias e decidindo que nessas famílias existirão também filhas e filhos. Essas famílias surgem apesar do mundo despreparado e violento que vivemos. Um mundo que tem muita dificuldade com as crianças, com as pessoas LGBTs, com mulheres sem útero, com homens de útero, com tudo aquilo que não é plástico, engessado, tradicional e, muitas das vezes, artificial e falso. 

Minha cabeça tá um turbilhão. Tanta coisa pra elaborar, tanta coisa por viver. E o certo é que nenhum tipo de conservadorismo ou fundamentalismo vai me impedir. 


N.do.E.: Felicitamos a nossa colunista Lana e seu companheiro Edu pela gravidez! Vem aí um bebê LADO B para nos encher de esperança e motivação na luta por um mundo melhor pra ele/ela e para todos os demais que estão vindo. VIVA A VIDA!

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