Vera Magalhães e o jornalismo liberal

Na última segunda-feira, 16, o cantor Martinho da Vila foi questionado pela jornalista Vera Magalhães, apresentadora do Roda Viva, sobre “as milícias”. A pergunta, entendida pelo público como um caso de racismo, é também um reflexo do que é o jornalismo liberal brasileiro

O jornalismo liberal que faz com que economistas liberais nunca sejam questionados por todas as suas promessas e projeções que nunca se realizam. O jornalismo liberal que nunca pergunta a cantores sertanejos sobre os incontáveis crimes do agronegócio. 

Não existe nenhuma dúvida que Vera Magalhães é uma das maiores representantes do jornalismo liberal no Brasil. Um nome de peso da chamada “grande imprensa”, que copia a fórmula, a estética e a ideologia de veículos dos Estados Unidos, como CNN, CBS, Washington Post e NYT. 

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Mas o que significa, na prática, ser um jornalista liberal no Brasil? Além da seletividade racista, significa ter contribuído ativamente para o desmonte da democracia e da soberania brasileiras. É notório e documentado o papel das emissoras de TV, das revistas e jornais na ascensão da Lava Jato, no impeachment golpista sofrido por Dilma e, inclusive, na eleição de Bolsonaro. 

Jornalismo empresarial se gaba de “fazer perguntas desconfortáveis”, porém depende de quem é o entrevistado. (Reprodução)

Qual teria sido o impacto se Bolsonaro tivesse sido desmentido ao vivo, na bancada do Jornal Nacional, sobre o “kit gay” que nunca existiu? Ele mentiu descaradamente, diante da total conivência dos jornalistas. Isso significa que eles gostavam pessoalmente do Bolsonaro enquanto candidato? Provavelmente não. Mas era a chance de derrotar o PT, certo? E “derrotar o PT”, que pode ser entendido também como uma vontade tremenda de enterrar toda a esquerda brasileira, é um objetivo da burguesia. Burguesia essa que é dona absoluta dos maiores meios de comunicação do país. 

Pesquisa da ONG Repórteres Sem Fronteiras e Intervozes mostra que 5 famílias são donas de 50% dos principais veículos de mídia do Brasil. Apenas a família Marinho, dona da Globo, detém 9 dos 50 maiores veículos, incluindo os jornais Extra e Valor Econômico e a rádio CBN. 

Esses dados mostram como é difícil falar em democracia por aqui. Afinal, não existe democracia nem na comunicação! A Venezuela possui a TeleSUR, que está presente também em outros países da região. A Argentina possui a C5N. Aqui no Brasil não possuímos nenhuma emissora de TV, com investimento e relevância, que paute os fatos através de uma perspectiva anti-neoliberal. Nossa população vê o mundo apenas através dos filtros do liberalismo, que corrói cérebros e instituições. 

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É preciso um debate sério sobre o papel do jornalismo brasileiro e sobre o “poder” exercido por grandes jornalistas, que se tornam extremamente seletivos ou agressivos nos seus trabalhos, variando de acordo com seus próprios interesses e os interesses políticos e econômicos de seus patrões. 

O que justifica que Vera Magalhães, ao entrevistar Sérgio Moro, não tenha lhe perguntado sobre o combate às milícias? Moro, que era Ministro de um governo cujo Presidente é explicitamente envolvido com as milícias do Rio. A única justificativa para essa pergunta não ter sido feita é a normalização da barbárie, tantas vezes tentada por jornalistas e apresentadores de TV. 

Eles seguem alimentando os corvos que lhe arrancarão os olhos. Mas o pior é que nós também acabamos sendo devorados. 

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