A Reforma da Previdência e a viagem de Colombo

Por Eduardo Tomazine, PhD em Geografia pela UFRJ e Pós-Doutorando na UFF

Sabem qual é a última do duplipensar liberal? Que a reforma da previdência pavimenta o caminho para a redução de desigualdades. Concentração de renda = justiça social.

Primeiro os liberais acusaram os críticos da reforma de incorrerem em terraplanismo contábil. Trataram, antes, de excluir a regressividade tributária da equação do orçamento público. O mundo contábil liberal é tão vasto quanto uma padaria.

Agora vêm com essa de que o governo economizará um trilhão, e com isso poderá investir em educação, saúde, saneamento básico e transporte. Austeridade = prosperidade. Sempre deu certo!

Não adianta contra-argumentar que a grande fatia deste trilhão é dinheiro de consumo de sobrevivência. A economia é sobre o remédio para a pressão arterial. Corte de material escolar dos netos. Poupança de carrinhos de feira para os filhos desempregados. O triunfo do ovo sobre a carne.

Inútil recorrer à experiência econômica de séculos para demonstrar que a queda do consumo agudizará a recessão. Que “confiança” sem gasto público nunca deu camisa a ninguém. Que a redução da atividade econômica implicará aumento do desemprego e perda de capacidade fiscal. Que o déficit da previdência tende a crescer, bem como a pobreza, a miséria e a desigualdade.

Maia liderou os 379 deputados que mataram sua aposentadoria. Chorou ao final – Créditos: Lula Marques

A PEC da previdência promete alcançar as praias do equilíbrio fiscal, mas não é disso que ela trata. O negócio é de conquista. Cristóvão Colombo também tinha um plano infalível, cuja negação ficou para as gerações futuras como expressão de crença no terraplanismo. Com a autoridade da matemática e da geometria, ele propôs à Castela um negócio da China: navegar para oeste até chegar ao Oriente! Ele estava certo e Castela lucrou. Afinal, a Terra não é plana.

Pouca gente sabe, porém, que o sucesso de Colombo encobre um erro de cálculo primário. O genovês estudou os sábios árabes para inferir a circunferência da Terra, mas esqueceu de converter as milhas árabes para as italianas (ou fingiu esquecer). Por conta desse erro, a viagem prevista por Colombo entre as Canárias e o Japão era quatro vezes menor que a distância real. Sua aventura estava fadada ao suicídio, dele e de toda a tripulação da Nina, da Pinta e da Santa Maria, não fosse um detalhe: a América. Cálculos de conquista.

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Os liberais prometem chegar ao paraíso do crescimento via austeridade e investimento privado. Calcularam o déficit da previdência, projetaram economias e vaticinaram: o equilíbrio das contas públicas será recompensado pela confiança do mercado. Nossas caravelas voltarão repletas de tesouros.

Mas esse círculo virtuoso de austeridade e bem-estar é mais um ovo de Colombo. O mundo das contas públicas é, de fato, redondo, embora maior, muito maior que aquele da contabilidade de padaria dos neoliberais. Estejam, pois, preparados para as calmarias da recessão. O colapso social está à vista! A América eternamente reconquistada.

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