Enchentes na Baixada Fluminense: um infindável beira-Rio

* Por Augusto Perillo

No final do dia da mentira de 2022, a Baixada Fluminense viveu momentos de terror nunca antes presenciados com a queda de um volume imenso de água. Se ouviu muitos relatos de regiões que nunca encheram antes serem inundadas com a torrencial chuva que desabou. Nilópolis, Nova Iguaçu, Mesquita, Belford Roxo e municípios vizinhos foram os mais afetados.

Nas horas subsequentes da primeira gota que caiu, o que se viu foram milhares de famílias com água até a cintura, asfaltos cedidos, ônibus parados, assim, afetando a vida dos trabalhadores que tentavam chegar em casa, além de milhões de reais em prejuízos materiais e um absoluto silêncio na mídia hegemônica acompanhado, no mesmo volume, da (não) aparição pública das prefeituras locais.

De acordo com o site “tvglobo.fandom.com”, o noticiário da emissora fez a sua inserção na grade com o seu aterrorizante “plantão “12 vezes nesse ano. Os dois primeiros, sobre o deslizamento da pedra em Capitólio (MG); o terceiro, sobre a morte de Elza Soares; o quarto, sobre chuvas em São Paulo; o quinto foi sobre a tragédia de Petrópolis e, do sexto ao 11º, sobre a guerra da Ucrânia. O último foi sobre a internação médica do verme que ocupa a presidência da República.

Aos leitores mais desavisados, que não conhecem bem a geografia da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a Baixada Fluminense é um território com 13 municípios, mais de 4 milhões de pessoas e que fornece cerca de 20% (isso sem contar o fornecimento de mão-de-obra para a capital) do PIB do Estado. Na noite do dia 1º de abril, uma boa parte da região vivia – e vive até agora – uma calamidade antes nunca vista, inédita até nos registros memoriais dos moradores.

Quase submerso, um morador da Baixada Fluminense segura cartaz com mensagem autoexplicativa (Reprodução)
Quase submerso, um morador da Posse segura cartaz com mensagem autoexplicativa (Reprodução)

 A não cobertura imediata, ou a não devida importância dada, ou o trabalho jornalístico mal feito… Enfim, como você quiser chamar, a má relação entre mídia e Baixada Fluminense não é de hoje. De acordo com o relatório “Impunidade na Baixada Fluminense”, a mídia recorrentemente aborda a Baixada a partir de estereótipos e inviabilizam uma série de questões pertinentes a região. Na análise realizada pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESEC), em meados de 2004 (mas que continua atual), nos principais jornais do Rio de Janeiro, fora constatado que apenas 5,4% do noticiário fora sobre a Baixada. Ainda assim, com o viés estereotipado da “região naturalmente violenta”.

O que a mídia esquece – ou opta por não falar – é que a região, antes de tudo, é uma região violentada. O apagamento é uma das muitas formas de violência desse território que alguns estudiosos chamam de “não-lugar”. Vale lembrar que muitos dos prefeitos dos municípios que compõem a Baixada Fluminense sequer moram na região e, sim, na Barra da Tijuca ou na Zona Sul do Rio. O Rio de Janeiro (sua zona rica, obviamente), portanto, possui uma hegemonia cultural formalmente instaurada pela mídia mesmo que isso não represente a realidade dos fatos.

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No noticiário televisivo, a bicicleta do Itaú danificada possui um destaque maior do que as necessidades de mais de 4 milhões de trabalhadores que vendem sua força de trabalho para a capital do Estado. A nossa sina, como bem afirmou o sociólogo José Cláudio S. Alves, é viver tão perto do Rio: se, por um lado, estamos próximos, o poder público terceiriza à capital as demandas básicas de serviços; por outro lado, estamos distantes: somos uma região colocada à margem do processo de construção de cidadania.

Para além do debate sobre catástrofes naturais, que será a tônica do fim do mundo protagonizado pelo capitalismo, o que esse texto quer provocar é a subvalorização de certas vidas. Neste caso, a dos moradores da Baixada Fluminense. Os elementos históricos durariam infinitas laudas e não teremos tempo. Logo, a periferia necessita ser um local de direitos para avançarmos coletivamente como democracia. O descaso com as dores dos “Baixadenses” está muito longe de um acerto de editorial das redes Globo, é uma reafirmação do modo que as elites encaram o Brasil. Por aqui, termino: com ou sem a chuva, a Baixada Fluminense é um infindável beira-Rio.

* Augusto Perillo, morador de Nilópolis, graduando em Ciências Sociais pela UFF e produtor audiovisual na Embaixada.

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