“A forma de enfrentar o ódio é a organização coletiva”, afirma Talíria Petrone

Mulher, preta, professora, socialista, militante dos Direitos Humanos, deputada federal. Esta é Talíria Petrone (PSOL-RJ), a combativa parlamentar que topou “colocar seu corpo para a luta” e enfrentar o discurso de ódio no Congresso, nas redes e, claro, nas ruas. No começo de junho, ela esteve com os panelistas no Lado B do Rio #105.

O programa, em formato de “entrevistão”, abordou em quase duas horas diversas questões como feminismo, genocídio negro, o discurso de ódio, as perdas da esquerda e a avalanche bolsonarista.

Os panelistas do Lado B do Rio: Caio Bellandi, Fagner Torres, Alcysio Canette e Daniel Soares, com a deputada federal Talíria Petrone ao centro

Leia alguns dos melhores momentos do programa:

FEMINISMO PARA TODAS

A luta feminista tem sido apropriada por aqueles que não querem a emancipação de todas as mulheres. O feminismo tem que ser, de fato, um instrumento de emancipação para a maioria do povo. O Brasil é um país do quartinho de empregada. Quem é essa trabalhadora doméstica? Mulher, negra, favela“.

“O feminismo liberal, que não entende as profundas desigualdades dos países da América Latina, não serve pras domésticas, por exemplo”.

TALÍRIA PETRONE

Representatividade é importante? Muito importante. Mas tem um limite. Ela por si só é insuficiente. É importante ter mulheres por suas experiências – medo da violência sexual numa rua escura, peso do trabalho doméstico não entendido enquanto trabalho – mas nem todas as mulheres vivenciam as experiências que a maioria das mulheres vivenciam

Não basta ser uma mulher em um lugar. Tem que defender a ampliação dos direitos da maioria das mulheres. Mulher contra a legalização e regulamentação do aborto não nos serve. Ser mulher contra o direito trabalhista contra trabalhadoras domésticas, não nos serve“.

UNIÃO CONTRA O ÓDIO

São diferentes formas de violência que mulheres negras combativas, de luta, experimentam quando topam colocar o corpo para a luta. É algo que provoca dor…mas, a luta coletiva é muito potente. O que eu faço com o ódio, com o medo? Me organizo. A luta coletiva, a organização popular, estar entre os meus e a minhas, pensar que a transformação só chega de forma muito coletiva. É onde eu trabalho o ódio e a dor provocada pela violência política. O momento é muito grave no Brasil, aumento absurdo de violência política, seja pública na rede social, seja as de dentro dos porões do estado, nas milícias que dominam territórios“.

“A forma de enfrentar o ódio é a organização coletiva. Pegar esse ódio, essa dor, e, dentro da organização coletiva, trabalhar esses sentimentos para ficar firme e de pé”.

TALÍRIA PETRONE

A LUTA NO CONGRESSO

Não tenho nenhuma ilusão com parlamento que hoje faço parte. Mandato só serve se for instrumento para a luta que está para fora dele: luta de mulheres, das favelas, periferias, subúrbios. Não ter ilusão não significa não achar extremamente importante. Não tenho ilusão porque o Congresso não representa a maioria do povo brasileiro, seja na diversidade, nas pautas priorizadas. Mas é muito importante ocupar esse espaço. É contraditório: sem ilusão, mas convicção da necessidade de estar lá, combativo“.

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A AVALANCHE BOLSONARO

É um momento de muitas incertezas, mas são menos do que após a eleição dele. A gente não tinha certeza se as promessas de campanha seriam cumpridas. Hoje, tá bastante explícito: ele não mentiu. O desmonte é muito grave, seja na política externa, seja na justiça sócio-ambiental, seja no alargamento do estado penal, seja no desmonto do estado no que se refere a direitos. Em alguma medida, a oposição tá conseguindo trabalhar ao máximo em conjunto possível, com diferentes partidos. Temos muitas divergências, mas entendemos a gravidade do possível rompimento democrático que estamos vivendo no momento. Nossa democracia é jovem, incompleta. O tempo de democracia formal no Brasil é menor que a ausência de democracia. Lutávamos para aprofundar a democracia, mas o que está colocado é que há uma impossibilidade de lutar pra aprofundar. O Estado Democrático de Direito no Brasil, já falho e incompleto, hoje tem brechas para ser rompido. Então, o parlamento precisa atuar de forma mais ampla para barrar o que puder ser barrado e tentar manter as instituições funcionando“.

“Por outro lado, é preciso também construir um caminho radical. Não é ausência de diálogo. É ir na raiz. Crise é momento de ocupar, reorganização”.

TALÍRIA PETRONE

Também pode surgir uma transformação societária que não seja a política do ódio. Ele se elegeu dizendo que a nova política, quando ele é a expressão da mais velha política. Então, a gente precisa olhar para o nosso umbigo: onde a gente estava? O que tem que fazer agora? Voltar para os territórios, escutar as pessoas, construir com elas as alternativas.

No congresso, há uma articulação mais ampla, mas no PSOL, há uma tentativa de construir algo muito conectado com as lutas populares. É a alternativa necessária para esse momento grave que vivemos“.

SOCIALISMO E LIBERDADE

Mesmo liberais ‘raiz’, digamos assim, que defendem a legalização do aborto. Mas o que vai adiantar se não tiver SUS? Por isso, socialismo vem junto com liberdade. Nem podemos encampar a luta pelas liberdades individuais porque isso não serve para maioria do povo, nem também experiências socialistas que não entendam que a democracia radical, real, também são instrumentos para emancipar o povo. Detesto que as questões que envolvem gênero e negritude sejam entendidas como identitárias. Não concordo, não é um termo adequado. Quando a gente pensa a classe trabalhadora, ela é concreta: ela é mulher e negra. Pensar as liberdades como parte de uma luta pela liberdade coletiva. A liberdade individual deixa corpo pelo caminho. A gente precisa encampar as especificidades da classe trabalhadora, mas também precisa entender que apenas lutar por liberdades individuais é falso, é manter os mesmos pelas estruturas de poder“.

“A gente precisa concretizar esse discurso. Como? Falando: se você quer a liberdade de abortar – e a gente deve ter -, temos que fortalecer o sistema único de saúde para que todas as mulheres possam ter acesso. Você quer o direito a ser mãe? Precisamos ter creche pública, para que todas as mulheres tenham direito de ser mãe e tenham onde deixar seus filhos. É juntar a luta por liberdade com a luta para transformar esse sistema atual, que é a barbárie”.

TALÍRIA PETRONE

O episódio completo com a atuante parlamentar do PSOL Talíria Petrone você encontra no Spotify, iTunes, nos principais agregadores de podcast para smartphone e no site da Central3.

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