Após ataques e sucateamento de Bolsonaro, artistas populares acordam no embalo de Lula

Uma das principais inimigas do Bolsonarismo desde que Jair Messias Bolsonaro apareceu no cenário nacional como player político, a Lei Rouanet sofreu todos os tipos de ataques por parte do Genocida e seu séquito de beócios na tentativa de ferir a imagem de artistas. Na última semana, os parvos da vez foram a dupla de sertanejos Zé Neto e Cristiano, próceres do gênero que domina o Brasil a partir dos tentáculos do agronegócio. A frase-feita, caluniadora para atacar Anitta, acabou servindo de munição para que jornalistas como Demétrio Vecchioli mostrassem o derramamento de dinheiro público que os sertanejos costumam ganhar, principalmente de prefeituras do interior do país.

Atacar a Lei Rouanet para manchar a imagem da classe artística não é novidade, mas há nova subida de tom, afinal, estamos em ano de eleição. O desconhecimento de como funciona a Lei Federal de Incentivo à Cultura de nº 8.313 do dia 23 de dezembro de 1991, auxilia a propagação dessas fake news.  O texto foi criado por Sérgio Paulo Rouanet, então secretário de Cultura do governo de Fernando Collor, atualmente, um senador aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro, vejam só. O mecanismo é bastante liberal: a grosso modo, os produtores mandam seus projetos para o governo pedindo DINHEIRO DE EMPRESAS para financiar iniciativas culturais. As empresas ESCOLHEM em quais projetos previamente aprovados pelo governo vão colocar a grana. O estado entra abatendo parte ou todo valor do incentivo no IMPOSTO das empresas. Por conta desse mecanismo que deixa a iniciativa privada escolher em quem vai investir, a lei acaba, de fato, causando distorções: é comum que grandes empresas queiram colocar milhões para shows de artistas muito famosos e que quase nada pingue para as escolas de samba, por exemplo.

Resumida a questão da lei, volto ao tema central do texto: a reação da classe artística, ou boa parte dela

Não é de hoje que a extrema-direita ataca Chico Buarque, Caetano Veloso, Chico César e outros artistas vinculados à – chamemos assim – MPB, que sempre estiveram mais à esquerda do espectro político. Acontece que quatro anos do Regime Bolsonaro tornou a reação maior. O front antifa agora não é somente composto por aqueles de sempre, com ar mais intelectualizado, menos populares e mais velhos. Atores, atrizes, escritores e até influencers e principalmente cantores e cantoras de grande projeção nacional resolveram usar a boca para aumentar a voz no basta à extrema-direita. Com um mandato baseado em um projeto de esvaziamento de toda e qualquer cultura, das mais populares às mais eruditas, ataques pessoais contra artistas e um completo descaso com a arte mesmo em momentos de mais dificuldades, como na pandemia, Jair Bolsonaro chamou contra si um time que cresceu, encorpou, diversificou e ganhou o debate público.

É fato que a presença de Lula no jogo político também ajudou no “tabuleiro dos artistas”. O ex-presidente teve Gilberto Gil como ministro da Cultura. Com muita popularidade com o eleitorado brasileiro, ficou mais fácil para qualquer um se aliar ao batalhão que pretende deter mais uma vitória da extrema-direita. De toda maneira, não é só Chico Buarque (sempre à esquerda), Caetano Veloso (se ‘desliberalizando‘), Zélia Duncan ou Wagner Moura que agora estão na linha de frente do campo antifascista liderado pelo PT. É verdade que, em 2018, Haddad também teve apoio de boa parte da classe artística. Mas nomes fortes no cenário como Seu Jorge, Ludmilla, Zeca Pagodinho e Anitta, por exemplo, ficaram de fora da “frente cultural” de quatro anos atrás. Com a postura neutra, muitos desses deixaram até dúvidas se teriam votado no fascista.

Leia também:
Movimento ‘Lulastro’? Paes, de olho em 2026, rompe com PDT
Opinião: Gabriel Monteiro é sintoma grave
Enchentes na Baixada Fluminense: um infindável beira-Rio

Essa incerteza não aparecerá em 2022. Todos os citados e muitos outros deixaram expressas suas posições ao longo dos últimos quatro anos e estão muito mais engajados para a batalha eleitoral de outubro. Na foto já clássica de Lula com artistas, divulgada em março deste ano, nomes de sempre como Antônio Pitanga se somam a artistas populares do quilate de Paulinho da Viola e Zeca Pagodinho, historicamente mais discretos em suas posições políticas. Aparece ali também Ludmilla, que chutou as dúvidas e assumiu o lado. Outras cantoras de público parecido também são exemplos, como Iza e Luísa Sonza. A pressão dos fãs dessas três, majoritariamente um grupo jovem e/ou feminino e/ou LGBTQIA+, também parece ter sido fundamental para que as ‘divas pop’ brasileiras saíssem da casinha da isenção e assumissem não só o anti-bolsonarismo como o lulismo – ao menos, até 31 de dezembro.

Foto já clássica de Lula em março de 2022 demonstra que apoio da classe artística deverá ser maior e mais incisivo que em 2018 (Divulgação)

Astros do rap, que historicamente se colocam no campo antifascista, também parecem ter reforçado ainda mais seus entendimentos e a importância de seus discursos ao microfone, nas músicas ou não, e aumentam sua presença na luta, coisa que as novas estrelas do funk parecem ainda ratear em fazer. O axé, não tão mais popular assim, segue majoritariamente em silêncio, embora Manno Góes, Daniela Mercury e Margareth Menezes antagonizem o discurso baba-ovo fascista de Netinho. Silêncio ou discrição que também se vê nos grandes nomes do pagode e de outros estilos populares como o piseiro e o forró. No sertanejo, se é que tem alguém pensando diferente, ousar falar alguma coisa contrária ao discurso apoiado pelo agronegócio significa colocar a carreira em risco.

Não sei e nem quero saber se ex-BBB é artista, mas como são famosos e têm bastante alcance, cabe citar alguns deles, que também mergulharam no desejo de fazer Lula presidente, caso de Gleici Damasceno, que venceu a edição de 2018 do programa e reconhecidamente petista, além de outros participantes como João Luiz Pedrosa, Arthur Picoli e Gil do Vigor. Influenciador não é artista (ou é), mas também reforçam o coro lulista. Caso de Felipe Neto, outrora crítico ferrenho do PT, que fez mea-culpa e entende que a disputa entre Lula e Bolsonaro não é “uma escolha difícil”.

Nos palcos e telas, supercraques sempre ao lado do povo, como Marieta Severo e Paulo Betti, recebem novos nomes dispostos a usarem sua popularidade e talento para enfrentar o fascismo, como Bruno Gagliasso, Lázaro Ramos e Alinne Moraes, em um momento onde a Globo já não predomina no mercado.

O número (e a relevância) de famosos com Lula em outubro de 2022 deverá ser parecida, ou quem sabe até maior, do que se viu em 1989. É reconfortante saber que tanta gente jovem, bonita, rica, com talento e alcance escolheu o lado certo da disputa e se lança “sem medo de ser feliz” nessa escolha. Se não é o suficiente para ganhar uma eleição, tampouco significa a certeza de uma sociedade melhor, ao menos, dá para dizer que a arte popular e de grande alcance contra-ataca sem ficar calada.

*Deseja ajudar o Lado B? Torne-se um apoiador na Orelo a partir de R$ 2 por mês ou faça um PIX para [email protected]

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.