Em “carta ao povo fluminense”, Freixo faz a primeira jogada

Há alguns dias, a entrevista que Marcelo Freixo deu para o Lado B do Rio acabou por pautar a política fluminense e começou a antecipar o horizonte para a eleição no estado no ano que vem. Antes de adentrar nessa questão, quero contextualizar: a ida do principal quadro de esquerda do Rio de Janeiro em um dos principais veículos contrahegemônicos do estado – às favas com a modéstia – era esperada há anos. O Lado B sabia que Freixo tinha muito o que dizer desde 2016, quando iniciamos a empreitada e o então candidato a prefeito do Rio era o bote salva-vidas de uma esquerda partidária destruída pelo golpe em Dilma Rousseff. Nossas histórias se entrelaçam: o podcast surge quando o deputado se torna uma figura mais conhecida nacionalmente.

Sabemos que quase nunca, quase ninguém da esquerda tem 90 minutos para pensar, falar e responder com calma questões concretas. Não há espaço na mídia empresarial para uma figura como Marcelo Freixo falar tudo que pensa sobre política e sociedade. A função principal do Lado B é abrir esse espaço.

Demorou, mas o programa saiu

E se a demora foi muito grande, a repercussão das falas do deputado federal do PSOL no podcast foi ainda maior. Em tom sério, com clareza e tempo para expor seus motivos, muitas vezes saindo daquele verniz de político com frases feitas e abrindo o seu coração, Freixo reiterou a convocação que havia feito dias antes, em entrevista aos veículos empresariais: quem tiver juízo, precisa estar no barco dele na eleição para governador de 2022. Nesta chamada foram convocados até figuras da direita fluminense como Rodrigo Maia e Eduardo Paes, citados nominalmente pelo deputado.

O parlamentar foi direto e reto ao se colocar como um pré-candidato viável ao Palácio da Guanabara. E com um ano de antecedência. Com isso, fez a primeira jogada pública no tabuleiro eleitoral. Em uma eleição que deverá ser marcada pelo fracionamento (tanto na esquerda quanto na direita) e pelo descrédito da população nos concorrentes, cada vez mais crescente, Freixo já se lança como alguém disposto a acabar com a Era Bolsonaro no Rio e, claro, também no Brasil.

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E para lograr êxito nas urnas após duas derrotas para a prefeitura da capital, o psolista vai precisar de ir além do PSOL e do chamado voto ideológico. Sabendo disso, em uma espécie de reedição da “Carta ao povo brasileiro” de Lula em 2002, Marcelo Freixo vem batendo na mesa e praticamente intimando partidos, políticos e grupos não-bolsonaristas na criação de uma frente ampla que “dispute contra o crime” como corretamente declarou no programa.

Com uma estratégia clara na cabeça, Freixo tenta reunir uma tropa antibolsonarista para 2022 (Reprodução/Internet)

Claro que as falas de Freixo neste 2021 não formam um “trato de intenções” como foi a carta de Lula em 2002. O contexto do país era outro, o conteúdo ali descrito era diferente e até os destinatários não são exatamente os mesmos.

Mas o objetivo da “Carta ao povo fluminense” informal que Freixo declarou no Lado B do Rio é igual: o intuito é fazer do deputado alvo de fake news há uma década se despir da pecha de “ideológico” ou “extremista” que a opinião pública costuma colocar em qualquer pessoa de esquerda. Freixo quer formar um batalhão para além de suas trincheiras nas universidades, sindicatos e na graciosa Praça São Salvador. Fala em ganhar a Baixada, reduto da ‘Teocracia Miliciana Fluminense’. Fala em ganhar o interior, afeito a currais e tradicionalmente conservador.

Como um dos principais quadros eleitorais do Rio – à esquerda, o principal -, Marcelo Freixo tem voto suficiente para falar um “vem comigo que no caminho te explico” para outros concorrentes, e não só em seu campo ideológico. A ausência quase completa de quadros viáveis no lado esquerdo da política institucional é apenas um dos sintomas. Na direita “limpinha” não-bolsonarista também há um vácuo para 2022, já que Eduardo Paes, o principal nome, não deve ser candidato. O bolsonarismo também se moveu, se rompeu, e não sabe com quem e com quais aliados poderá contar para outubro do ano que vem.

Freixo joga seu charme

É nesse cenário de “ninguém é de ninguém” que Marcelo Freixo fez seu primeiro movimento. Piscou, jogou o charme e deixou a janela aberta.

O parlamentar entendeu que precisará conciliar com outros partidos, algo que o PSOL só nas últimas eleições começou a aprender a fazer. Não por acaso, é abertamente cortejado por outras siglas mais acostumadas a esse jogo, como PDT e PT. Nesse sentido, inclusive, as alianças nacionais farão toda a diferença para sabermos se veremos Freixo no PSOL ou não e qual ou quais presidenciáveis estarão com ele na tentativa de fazer o deputado chegar ao Governo do Estado. Tanto Ciro quanto Lula são entusiastas de Freixo, que deixa claro que também não abre mão de nenhum deles.

Como em 2020, quando abdicou de disputar a capital sem ‘unificar as esquerdas’, Freixo entendeu que para 2022 a urna eletrônica não computará apenas a ideologia dele. Assim, percebeu o que precisa para vencer as eleições, levando em conta o que vencer as eleições no Rio de Janeiro atual significa: derrotar o crime organizado, disputar o território e evitar que a mente das pessoas sejam dominadas por milicianos e fundamentalistas (ou ambos).

Convenhamos, não é difícil entender isso, embora sua base eleitoral tenha razão em ponderar, desconfiar ou até discordar. Afinal, sentar na mesa com gente traiçoeira e com interesses diferentes é sempre desconfortável. Mas também é natural no sistema político que vivemos. Resta saber apenas quem vai trair quem, quando e como.

De toda forma, o tabuleiro está na mesa e a peça de Marcelo Freixo fez o primeiro movimento. Ainda tem muito jogo pela frente.

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