Freixo faz sua segunda jogada, mas não joga sozinho

Há dois meses, contei aqui neste espaço como Marcelo Freixo fez a primeira jogada no tabuleiro da política eleitoral fluminense ao abrir seu leque de apoios em uma espécie de “carta ao povo fluminense”, já pensando em 2022. Pois bem: com a saída do deputado federal do PSOL para o PSB, aconteceu a segunda rodada do jogo. Dessa vez, Freixo não jogou sozinho.

A troca de legenda do maior quadro eleitoral de esquerda do Rio de Janeiro merece, por si só, uma série de análises, que fizemos na “Live B do Rio URGENTE – Freixo no PSB, e agora?”, também disponível em podcast.

Mas a cartada não foi a única.

Recentemente, Eduardo Paes, o político mais popular do estado, mudou de partido pela enésima vez. Saiu do DEM e encontrou abrigo no PSD. A jogada de Paes moveu também Rodrigo Maia, que acabou expulso do partido onde sempre esteve. Embora eleitoralmente seja um quadro abaixo dos outros dois citados neste texto, o filho de César se envernizou como político experiente na loucura antipolítica que o Brasil vive durante o Regime Bolsonaro. Logo, seus passos passaram a ter alguma importância.

Portanto, é cabível dizer que a segunda rodada da política fluminense teve ao menos duas grandes jogadas. E ambas confluem para a fuga da ideologia partidária e da chamada “polarização”, nome (ruim) que a mídia hegemônica encontrou para falar do confronto entre o neofascismo de Bolsonaro e a socialdemocracia de Lula.

Eduardo Paes, ao lado de Maia, vai da direita para a centro-direita, se abrigando em um dos partidos mais fisiológicos da atualidade, se não o mais. Já Marcelo Freixo sai da esquerda e vai para a centro-esquerda. Embora menos amplo e carregando um histórico de luta que o PSD não tem, o PSB atual também não é lá uma legenda que preza pela fidelidade ideológica, abrigando políticos muito longe de serem socialistas como o nome sugere. E isso é importante eleitoralmente, dado que o antipetismo ainda é patente no Rio e no Brasil. Em outras palavras, Freixo tenta se “desradicalizar”, considerando o PSOL um partido radical como a opinião pública hegemônica considera. Ao mesmo tempo, consegue não se vincular diretamente ao petismo.

Centro-lulismo

As jogadas de Paes/Maia e Freixo fogem da tal “polarização”. Mas miram Lula. Embora convivendo com o antipetismo, o ex-presidente ainda tem uma popularidade orgânica alta. No Rio de Janeiro não é diferente. Caso chegue vivo, solto e elegível, estará no segundo turno das eleições de 2022 – partindo do princípio que haverá eleições, haverá Brasil e haverá um 2022. E Lula parece disposto a olhar para o estado fluminense com especial atenção. A aposta no corrupto Sérgio Cabral se mostrou desastrosa. Além do mais, o bolsonarismo nasceu banhado pelas águas da Baia de Guanabara e do Atlântico.

Com a mão canhota, Lula atua para que Marcelo Freixo seja o candidato da “unidade de esquerda”, embora ainda não dê para cravar o quão unido e o quão de esquerda será a candidatura do ex-psolista. Com isso, o petista deve garantir um palanque importante na busca do terceiro mandato. Novamente desconsidera o PT fluminense, que ainda busca uma reconstrução depois de décadas sendo colocado na vitrine com etiqueta de promoção. E sem o solzinho no peito, Freixo se distancia do discurso do PSOL de apoio aberto às chamadas “pautas identitárias”, além de temas como legalização das drogas e da regularização do aborto, que afasta o eleitorado conservador. Isso deve lhe garantir uns votos a mais, espelhando o movimento que historicamente Lula faz: não levanta abertamente essas bandeiras, mas também não as desmerece.

Já com a mão direita, o petista afaga Eduardo Paes, com quem se reuniu na tour que fez pelo Rio semana passada. Oficialmente, o prefeito carioca lançou o ex-presidente da OAB Felipe Santa Cruz como pré-candidato ao estado. O advogado é ex-petista e deve acompanhar o Paes no PSD. Sem cacife eleitoral, poderá ser manejado facilmente para outras disputas caso o partido resolva compor. E Marcelo Freixo já piscou para Maia e Paes, que deixam o agora pessebista na fila de espera. Se Santa Cruz prosseguir no trajeto rumo à candidatura ao estado, será possível Lula tentar um segundo palanque importante no estado.

Em tour no Rio, Lula priorizou Marcelo Freixo, mas também se encontrou com Eduardo Paes (Reprodução/Twitter)
Terceira via

Se Lula olha para um peixe e para um gato, Paes e Freixo tampouco fixam olhares no petista. O presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, que vai tirando a legenda do bolsonarismo, já admitiu que poderá lançar candidato próprio ao Planalto. Lula tenta cortejar o partido, mas o negócio será custoso. No balaio de gato kassabista, há nomes como Ratinho Junior, alinhadíssimo ao Regime Bolsonaro, e Antonio Anastasia, de plumagem tucana. Dificultando ainda mais o assédio do PT, a legenda de Kassab conta com Alexandre Kalil, prefeito de Belo Horizonte com altíssima popularidade e que já disse que não vai “pular nos braços” de Lula facilmente. O caminho de Kalil deve ser o governo de Minas, mas o ex-presidente do Atlético não descarta nada e seu nome vira-e-mexe surge para presidência da República em 2022.

Nessa de “não descartar nada”, outra carta surge na manga do PSD. Naturalmente, Eduardo Paes seria candidato ao Palácio da Guanabara em 2022. Mas o prefeito foge do assunto. Pudera: governar o estado fluminense é uma barca furada que afundou carreiras e fez postulantes ao Planalto naufragarem. De Brizola a Garotinho, passando por Sérgio Cabral, ser governador do Rio de Janeiro nos últimos 30 anos colocou uma pedra em trajetórias políticas de várias formas diferentes. Vem daí a fuga de Paes, que de favoritíssimo a ser o próximo governador em 2022, preferiu lançar (ou fingir que lançou) o novato Santa Cruz.

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Por isso, não dá para considerar uma grande surpresa se o prefeito portelense pular essa etapa espinhosa e ser o tal candidato próprio do PSD, se colocando na tão esperada “terceira via”. Paes vem se envernizando como quadro nacional ao aparecer na linha de frente pela vacinação não só na capital, como no estado do Rio. E dialoga o tempo todo nas redes com outros governantes para ver quem vacina mais rápido sua população. Típico “político-vaselina”, tem carisma, histórico de boa votação na segunda principal capital do país e foge do confronto ideológico. Se o insosso e sem votos ex-ministro Luiz Henrique Mandetta quer ser essa opção, não dá para desmerecer Eduardo Paes.

A busca pela tal terceira via segue semanalmente, embora a opção mais natural há décadas ainda esteja por aí. Ciro Gomes parece desidratar, mas não está fora da jogada e permanece impassível no PDT como candidato à presidência novamente. O PSB de Freixo, parceiro nas eleições municipais em 2020, já dá sinais de que deseja abandonar o barco do trabalhismo para navegar com o petismo. Mas mantém um pé na canoa cirista. Ainda há costuras a serem refeitas, principalmente no Nordeste e em São Paulo. Além da chegada do deputado federal ex-PSOL, a de Flávio Dino, governador do Maranhão que deixou o PCdoB, também deverá colocar o partido ainda mais próximo do projeto do PT. Mas as cartas ainda estão na mesa faltando muito tempo para outubro de 2022. Aqui no Rio, o PDT se move para dar um palanque para Ciro e cogita lançar Rodrigo Neves, ex-prefeito de Niterói com alta popularidade que fez o sucessor, Axel Grael que, vejam vocês…também se reuniu com Lula na tour carioca do petista.

Rio, eu gosto de você

A segunda rodada do xadrez político do Rio de Janeiro foi maior e mais complexa do que a primeira, e rompeu as divisas estaduais, mostrando que o estado deverá ser, mais do que nunca, um ponto-chave nas eleições de 2022. Afinal, o bolsonarismo nasceu aqui, vive aqui e Bolsonaro pretende mantê-lo por aqui, olhando para o RJ com especial cuidado. Por enquanto, pelos olhos do atual governador, o tal cantor gospel desconhecido Cláudio Castro, que deverá ser o candidato do Regime, embora o espectro bolsonarista também deva rachar até 2022.

O fato é que o zelo do genocida com seu berço político obrigou os demais postulantes ao Planalto a também tratarem com carinho o tão maltratado estado fluminense. Estaremos de olho nestes movimentos.

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