Movimento ‘Lulastro’? Paes, de olho em 2026, rompe com PDT

Há dois meses, escrevi que um movimento brusco e ousado do prefeito do Rio Eduardo Paes embaralhava as eleições para governador em 2022. Bem, não era mentira. Uma aliança em torno do ex-prefeito de Niterói Rodrigo Neves colocaria o candidato do PDT em condições de lutar pelo segundo turno, em chapa que teria a participação do PSD provavelmente com o ex-presidente da OAB Felipe Santa Cruz como vice.

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Mas se a política é o que se faz hoje para colher amanhã, Paes saiu na frente para as eleições…de 2026. Ao desfazerem a aliança sob o pretexto de não alcançarem um denominador comum – Neves tem bem mais intenções de votos e Santa Cruz, mais desconhecido, tem menos rejeição – os partidos deverão caminhar separados. O PDT parece confiar na boa aprovação de Neves enquanto prefeito de Niterói. Mas é possível afirmar que o neófito Santa Cruz deverá apenas participar da eleição, com pouquíssimas chances de ir ao segundo turno.

Dessa forma, Paes confirma, ainda que indiretamente, o que se fala à boca pequena: o prefeito quer mesmo é a reeleição de Cláudio Castro. Embora se declare adversário político do cantor gospel cosplay de governador, o cacique do PSD não costuma criticá-lo abertamente, alegando republicanismo pela relação entre Estado e Município, bem à sua maneira, liso e sem se queimar com ninguém.

Ou seja: adversário, pero no mucho.

A jogada de colocar alguém com pouca ou quase nenhuma chance para disputar as eleições para governador do Estado é quase uma desistência de disputar, o que configura uma clara estratégia. Afinal, Paes é de um partido fisiológico com bastante penetração no interior, seja nas prefeituras, seja nas câmaras, e é o quadro de maior projeção eleitoral, além de ser prefeito da capital fluminense pela terceira vez. Lançar alguém com chances reais de chegar ao Palácio Guanabara significaria ter que torcer para um novo governador. E um novo governador em 2023 significa que haveria um candidato com a máquina estatal lutando pela reeleição em 2026.

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Logo, caso Castro confirme a reeleição, Paes já larga na frente como postulante para o próximo pleito.

Este é um cálculo eleitoral que faz parte do jogo como ele é. Podemos criticar, afinal, tendemos a perceber que entrar numa eleição significa tentar ganhá-la – ainda mais alguém que chega com moral, voto e dinheiro em um cenário ainda aberto. Mas, se levarmos em consideração que o próprio Paes seria um favorito para ganhar já agora, em 2022, principalmente pelo recall da eleição perdida para Wilson Witzel em 2018, tal jogada é cálculo eleitoral muito bem pensado, mas para um futuro distante.

Pois é aquilo: na política, quatro anos são quatro séculos. Paes terá, pelo menos, mais dois anos garantido como prefeito do Rio. Em 2024, com uma outra conjuntura, poderá se testar nas urnas para um quarto mandato como prefeito, se preparando para 2026. A moral do alcaide fanfarrão já foi maior – 1 a cada 3 cariocas reprovam sua gestão atual, que nem de longe repete o sucesso das duas primeiras.

Até por isso, a torcida de Paes para outubro não é só por Cláudio Castro: o prefeito também deverá, calado ou não, torcer pela vitória de Lula este ano. Assim, vislumbra navegar em águas mais calmas para tocar o barco carioca e tentar voltar aos bons níveis de aprovação, como entre 2008 e 2016 – exatamente durante governos federais petistas.

E a coisa piora: Cláudio Castro, sabemos, é o candidato do Bolsonaro. Ok. Mas já piscou o olho para Lula de olho na popularidade do ex-presidente.

O PMDB do Rio apoiou Aécio em 2014, mesmo com o partido tendo o vice de Dilma, antecipando o movimento do golpe de 2016 (Reprodução/PSDB)

Se em 2014, o PMDB do Rio (partido de Paes à época), iniciou um movimento chamando AEZÃO para apoiar Aécio ao invés de Dilma – antecipando o golpe de 2016 e traindo a própria chapa nacional – dá para acreditar que Paes deverá ser o principal promotor do movimento LULASTRO.

Nem sempre 2 e 2 são 4. Coisas da política eleitoral.

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