Paes faz movimento brusco e abre 2022 embaralhando eleições para governador

Como disse esta semana minha colega Gabriella Figueredo: O ano começou. E as eleições, também. Não teremos para onde fugir: as eleições dominarão o noticiário político. Na esfera federal, nos apegamos na chance de defenestrar essa tortura psicológica desse desgoverno de fome e morte de Jair Messias Bolsonaro. Na esfera estadual, há possibilidade de novos rumos, também alterados (para pior) pela onda fascista de 2018. E no Rio de Janeiro, o pleito para governador promete, como sempre, fortes emoções até o início efetivo do periodo eleitoral.

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Nesta semana, o prefeito da capital Eduardo Paes fez um movimento importante que aponta para a desistência do seu partido de lançar o novato Felipe Santa Cruz para o Palácio da Laranjeiras. Em reunião com Rodrigo Neves, ex-prefeito de Niterói e pré-candidato a governador, foi costurado um acordo entre PSD e PDT. Dada à aprovação de Neves como prefeito e o desconhecimento de Santa Cruz do eleitorado, tudo leva a crer no apoio de Paes e seu partido ao candidato pedetista, deixando o ex-presidente da OAB de vice, ou postulante a outros cargos.

Neves busca trunfo no interior

O passo Eduardo Paes é uma jogada relevante. Trata-se da maior liderança eleitoral do Rio. Escolhido três vezes prefeito da capital, recebeu três milhões de votos na onda fascista de 2018, quando perdeu o segundo turno para o lunático Wilson Witzel. Mais do que os votos, Paes tem boa aprovação como “gestor”, é visto como “de centro e democrático”, é uma figura carismática que tem bastante tolerância da mídia hegemônica. Portanto, seu apoio tem peso. Mas, principalmente, o prefeito-fanfarrão tem na mão um partido fisiológico com boa base eleitoral.

O PSD elegeu alguns prefeitos em 2020, incluindo Wladimir Garotinho em Campos, filho do ex-governador. O pai migrou para o PSL, hoje União Brasil, e levou a filha deputada, mas o filho prefeito ficou e comanda uma cidade bem populosa para o padrão fluminense. Era o partido da ex-deputada Flordelis, que teve expressiva votação fora da capital também no fascistizante 2018. Além do mais, em torno do PSD, fundado por Kassab para ser um “novo PMDB”, costuma orbitar alguns outros pequenos partidos, com razoável penetração na esfera municipal. Ganhar apoio do PSD significa ganhar ter mais duas ou três pequenas legendas para encorpar um bloco mais consistente.

E é esse o grande trunfo que o pedetista Rodrigo Neves pretende. Com o apoio de PSD/Paes, o PDT de Neves ganha fôlego para a disputa eleitoral e pode rachar votos na raia em que Marcelo Freixo e o PSB são amplos favoritos ao 2º turno.

…mas precisa passar por Castro antes de disputar com Freixo

Ocorre que, se por um lado tem o PSD, por outro, Neves sabe que ganhar os demais partidos fisiológicos não será tarefa fácil. O cantor gospel e atual governador Cláudio Castro anda fazendo muito bem o serviço de ampliar alianças no interior, investindo em iniciativas de parceria estadual-municipal e despejando dinheiro num estado que, agora, vê a arrecadação aumentar. Portanto, antes de disputar a vaga da esquerda para o segundo turno com Freixo, Neves vai precisar vencer esta peleja com Castro.

Pela raia canhota das eleições, de partida, o ex-psolista Freixo sai com mais votos que todos os demais concorrentes ao Governo do Estado. Afinal, falamos de um político puxador de votos como deputado estadual e federal nos últimos pleitos. Na tentativa de chegar ao Palácio das Laranjeiras, adicionou no currículo o apoio de Lula e do PT, praticamente certo após declaração expressa do ex-presidente. Todo esse contexto deixa o pessebista na cara do gol para ir à segunda volta das eleições de 2022.

Apoio de Lula a Freixo vai se consolidando, mas movimento de Paes e Neves promete rachar centro-esquerda (Ricardo Stuckert)

Na raia da direita, Castro desponta como favorito. Bolsonarista, mas sem bajular excessivamente o Genocida, o governador se afasta sempre que pode e se une sempre que convém. Também corteja PSDB e MDB. Dessa forma, deve angariar os votos da parcela conservadora do eleitorado, ao menos, até que surja um bolsonarista de carteirinha ou um evangélico fundamentalista orgânico para dividir a direita e a extrema-direita fluminense. Fala-se do vice-presidente general Mourão, mas qualquer outro fascista conhecido – ou nem tanto – pode ser esse candidato. Hoje, é improvável que Castro não seja o candidato de Bolsonaro, mas no balaio fascista fratricida, convém aguardar.

As pesquisas eleitorais ainda mostram um quadro muito apertado, mas 2022 se inicia com o jogo começando a se abrir. Algumas peças ainda vão se mexer. Nas próximas semanas, o movimento de figuras como Rodrigo Maia, Garotinho e Marcelo Crivella pode embaralhar ainda mais ou ajudar a clarear o tabuleiro. A priori, Maia deve acompanhar Paes, Garotinho e Crivella devem ir com Castro, como Jair e os filhos. Mas como esses quadros se portarão nas eleições em seus berços políticos, seja com atuação suja no submundo do WhatsApp, seja publicamente, pode esclarecer muita coisa.

Preparem os cintos: teremos fortes emoções até outubro.

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