Tarcísio Motta: “A esquerda precisa oferecer um horizonte de ruptura”

As fortes derrotas eleitorais que os quadros de esquerda vêm sofrendo desde 2016 acenderam um sinal vermelho. Afinal, o surgimento da extrema-direita como opção “antissistema” preencheu um vácuo deixado pelos próprios partidos comunistas e socialistas. E é preciso recuperar esse discurso voltando-se para a base popular.

Alcysio Canette, Caio Bellandi, Tarcísio Motta, Fagner Torres e Daniel Soares segurando a pequena e sonolenta Luiza

É essa a análise de Tarcísio Motta, vereador do Rio de Janeiro eleito pelo PSOL. Na segunda participação do professor no podcast Lado B do Rio – a primeira do então vereador eleitor foi em dezembro de 2016 – Tarcísio bateu um papo bem amplo com os panelistas sobre a cidade – das enchentes até o carnaval – além, claro, da conjuntura nacional e os desafios da esquerda para este período.

Leia alguns dos melhores momentos do programa:

Socialismo, sim!

“A gente tem que aprender com as porradas. Tanto o caminho da unidade de ação e programa, quanto a recuperação do trabalho de base, ainda é incipiente. Tá na hora de começar a virar o jogo para além das eleições. Vou contar uma história pra ilustrar: fiz uma defesa política e técnica contra a medida do Crivella que perdoa dívidas de cartórios.  O pastor Inaldo, vereador do partido dele, disse pra mim: “Você fala tão bem! Está no partido errado! Vem pro PRB”.

Perguntei pra ele: “O PRB tá aceitando comunista? Eu sou comunista”. Aí ele: “Não, você é um cara legal, não pode ser comunista”.

Isso mostra que a gente tá parado na Guerra Fria. Virou exótico ser comunista ou socialista, carrega tudo de ruim”.

Perda do discurso antissistema

“A esquerda passou a ter pudor de se identificar como socialista ou comunista. E a gente perde parte da lógica da radicalidade quando a gente titubeia e diz que é só progressista.

A esquerda deixou de oferecer um horizonte pra pessoas. Isso é um problema.

Em 2018, uma parcela dos eleitores viu em Bolsonaro uma coisa antissistêmica, apesar dele ser deputado há 30 anos. Precisamos oferecer um horizonte de ruptura, mesmo que seja em nível municipal. A nossa campanha para governador em 2018 foi tímida nesse aspecto. Perdemos voto de protesto e ganhamos voto de adesão (NR: Tarcísio saiu de 8,92% para 10,72% dos votos em comparação com 2014).

Aí a ruptura pareceu ser o Witzel. Não basta ser só auto-declamatória, mas a gente precisa recuperar a lógica antissistêmica”.

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Desafios para 2020

A gente tem que vencer uma primeira tentação: transformar o Freixo no Freixinho paz e amor. A conjuntura de 2002, que elegeu o Lula, mudou. A gente tá num momento em que as pessoas querem mudança, alguém que apareça como novidade no cenário político.

Ou seja, como conseguir apresentar uma novidade melhor e, ao mesmo tempo, saber contra quem vai brigar e com quem vai falar.

A gente precisa apresentar nossa história de enfrentamento às milícias, por exemplo. Mostrar uma cidade em que a vida esteja acima do lucro, as pessoas sejam mais importantes que as coisas, ter direitos garantidos.

Precisamos de trabalho de base, continuar expandindo voto do PSOL para as zonas norte e oeste, apesar da presença da milícia. Tem que disputar o espaço com a radicalidade da defesa dos direitos e fazer o debate da unidade das esquerdas.

Haverá uma multiplicidade na direita com Crivella, um bolsonarista, o Eduardo Paes… Precisamos unificar a esquerda, recuperar parte das raízes do que significa ser de esquerda: apostar na igualdade, na organização do povo e no enfrentamento dos poderosos. E dizer para as pessoas que esse é o elemento fundamental da campanha.

A tal da união da esquerda

“Mais importante do que isso é pensar no papel dos eleitores do Ciro Gomes, por exemplo. O que vai fazer esse eleitorado que não votou no Pedro Fernandes (candidato a governador do PDT em 2018), mas votou no Tarcísio? Como fazer o eleitorado do PT, Ciro e do PSOL acreditar em um projeto unificado para a cidade? Com o Molon (PSB-RJ), líder da oposição na Câmara dos Deputados, como construir o diálogo? Temos que travar diálogos, mesmo com discordâncias. Não é só secretária, mas o tipo de proposta para o programa, para construir o projeto, as ideias que Molon, ou Ciro, ou a militância do PT de esquerda traz. Como o PSOL pode renovar suas propostas de 2016?

A ideia é ampliar a territorialidade, construir chance para ideias legítimas, com discordâncias, se apresentem de forma unificada, muito além da questão partidária.

O PSOL fará um seminário entre agosto e setembro a partir das fundações dos partidos, com uma lógica propositiva. Seminário aberto, com gente de fora, ampliar partidos além do PSOL, para deflagrar um processo de discussão na base, nos bairros, na lógica da construção de núcleos para discutir os problemas do Rio. Não é um processo de resistência, mas de proposição, de acúmulo de energia, ideias e valores.

A gente vai construir um programa de enfrentamento à enchente e deslizamento, algo que a esquerda nunca teve. Mais do que indiciar prefeito, secretários, é ter um projeto de enfrentamento de eventos climáticos extremos.

Agora, como a gente faz para o povo e a classe trabalhadora entender que nossas propostas são melhores?

Como a gente faz pro morador entender que a proposta sistêmica é melhor para a vida dele? Como garantir que as pessoas entendam que a política é para garantir direitos, e não para garantir favores?

Essa é a nossa dificuldade hoje, mas se estivermos maiores e dividir entre a gente, sem a gente precisar demarcar posição com Jandira, com Molon, com Márcia Tiburi, já é um primeiro passo para gente fazer o debate onde deve ser feito. E, a essa altura, a gente tem condição de fazer isso”.

Resistência e denúncia em meio ao bolsonarismo

“Vamos ter que denunciar as instituições. Não está fácil, mas tem muita água para rolar para a gente entender em que cenário vão acontecer as eleições de 2020. É um cenário de muita indefinição, não estamos em uma normalidade democrática, e precisamos denunciar isso em todos os momentos. Mesmo o arremedo de democracia da Nova República está se esfrangalhando.

Temos que apresentar uma proposta de ruptura e ao mesmo tempo, radicalização da democracia.

Trabalho na Câmara dos Vereadores

“Lá é mais fácil fazer a unidade da esquerda. São seis do PSOL, dois do PT e um do PDT, que é o Fernando William – o outro do PDT (Renato Moura) nunca se identificou como de esquerda e virou secretário do Witzel. O debate nem é pelos partidos, necessariamente. A gente tem um diálogo aberto com a Teresa Bergher, tucana, do PSDB. Ela nos apóia? Não. Mas muitas vezes, nas propostas minimamente republicanas, contamos com ela. Esse é o nível… o resto é absurdo.

Quando tá muito claro o vexame, até o César Maia vota com a gente.

Mas a grande maioria é de vereadores fisiológicos, interessados na obra do bairro e tal, sem contar os operadores do governo Crivella, da especulação imobiliária . Estão lá para votar no que o governo manda ou para votar contra o governo por oportunismo”.

O episódio completo de quase duas horas de conversa com esta figura necessária no Brasil você encontra no Spotify, iTunes, nos principais agregadores de podcast para smartphone e no site da Central3.

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Um comentário em “Tarcísio Motta: “A esquerda precisa oferecer um horizonte de ruptura”

  • 27 de julho de 2019 em 02:28
    Permalink

    Neste Brasil onde ainda domina a consciência escravocrata como garantir que as pessoas entendam que a política é para garantir direitos, e não para mendigar favores ?

    Resposta

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