O começo do fim de Marcelo Crivella

No último dia 13 de maio, o vice-prefeito do Rio de Janeiro, Fernando MacDowell, foi internado após sofrer um infarto do miocárdio. No dia 18, ia ao ar o Lado B do Rio #61, o primeiro no formato “Roletão da Pistolagem”. Entre outros assuntos, ao comentar sobre a internação em estado grave do vice-prefeito, o programa vaticinou que a eventual ausência de um vice-prefeito seria perigosa para Marcelo Crivella, um governante impopular, que goza de antipatia da grande imprensa e sem base política orgânica no Legislativo. Uma semana após a internação, no dia 20 de maio, Fernando MacDowell veio a falecer, deixando a cadeira de vice-prefeito vaga.

Falta de base sólida na Câmara Municipal

Este programa também chamou atenção no último ano e meio como o apoio a Crivella na Câmara acontece muito mais por uma questão de inércia de parlamentares que se legitimam junto a suas bases através da intermediação de serviços do Executivo do que por quaisquer outros mecanismos mais sólidos de adesão. Tradicionalmente, a relação entre Executivo e Legislativo na cidade é simbiótica: o Executivo atenda demandas intermediadas pela maioria dos vereadores junto a suas bases e indica apadrinhados políticos para postos nos mais variados graus da administração. Desta forma, os vereadores se legitimam junto a suas bases para que eles e seus correligionários se beneficiem de votos.

Em contrapartida, os vereadores fornecem ao prefeito uma sólida base parlamentar. Diante deste quadro, candidaturas de esquerda, como as de Marcelo Freixo (PSOL) em 2012 e 2016 propuseram a politização das questões municipais através da discussão direta com a população, de modo que os vereadores se sentissem pressionados a aprovar demandas de interesse da população. Utópico? Talvez. Mas o fato é que o prefeito Marcelo Crivella não fez uma coisa e nem outra. Desde o início de seu mandato aparelhou a máquina municipal com aliados próximos, sem passar pelos vereadores e, pior, fez a máquina pública trabalhar visando futuras candidaturas a deputado de alguns desses correligionários, como o ex-multi-secretário Rubens Teixeiro e seu filho Marcelo Hodge Crivella. Este expediente é visto pela maioria dos vereadores não apenas como falta de contrapartida ao seu apoio, mas como invasão de seus territórios.

Impopular

As pesquisas de opinião demonstram que Marcelo Crivella também não goza de ampla base de apoio popular. É importante lembrar que no primeiro turno Crivella obteve menos de 30% dos votos válidos, em uma eleição bastante fragmentada. No segundo turno, venceu com certa facilidade, numa eleição marcada pela rejeição de grande parte do público à esquerda e pelo alto índice de abstenção e votos anulados. Portanto, os quase 60% dos votos válidos não representavam tanto uma adesão ao Bispo, mas uma rejeição a seu adversário. Somando incompetência administrativa ao quadro de crise econômica e retração de receitas, o prefeito viu seu frágil capital político erodir rapidamente. Sua popularidade não chega a 20%, menos de dois anos após a eleição. A rejeição cresce a cada pesquisa. Apenas entre o público evangélico Crivella parece conseguir manter alguma popularidade. Mesmo assim, seus índices de ótimo e bom dentre os evangélicos não passam de 50% e mesmo algumas lideranças religiosas reclamam que eram melhor atendidas no governo anterior.

Deu motivo

Visando se segurar neste público específico, o bispo-prefeito montou o espetáculo palaciano do fim do mês passado, convocando diversos pastores para oferecer favores da máquina pública no atendimento prioritários de fiéis e no tratamento diferenciado às igrejas dentro da máquina pública municipal. Diante de informações de que a boa vontade com o prefeito está com os dias contatos mesmo dentre as lideranças evangélicas, o encontro pode ter sido articulado exatamente para segurar esta importante base de apoio. Entretanto, os convites por Whatsapp e áudios do encontro vazaram e o tiro saiu pela culatra. Como a grande imprensa, sobretudo a Globo, lhe é antipática, tudo isso rendeu dias de manchetes.

Além da total falta de republicanismo, o ato reforça a desconfiança dos vereadores da base com o prefeito. Como dito acima, são os vereadores que costumam fazer esse tipo de intermediação clientelista. Crivella os pôs fora da jogada em detrimento dos pastores e tendo como papagaio de pirata o seu protegido Rubens Teixeira. Começou a grita por impeachment, com algum fundamento, e hoje, 9 de julho, o primeiro pedido, de autoria do vereador peemedebita Atila Nunes Neto, foi protocolado na Câmara Municipal. Outros pedidos devem ser protocolados nos próximos dias.

Próximos passos

Aprendemos com o impeachment de Dilma Roussef que a existência ou não de crime de responsabilidade importa pouco neste tipo de processo: ele é eminentemente político. No mundo ideal, os indícios de crime são fortes na burla da isonomia dos cidadãos no acesso aos serviços municipais, mas ainda cabe investigação. Se ficar comprovado, que se vá o prefeito e seu projeto de poder político-religioso. Entretanto, no mundo da realpolitik, isso não importará tanto. O que importa é que se a cadeira do prefeito ficar vaga, novas eleições deverão ser convocadas para a eleição de um prefeito que termine o atual mandato.

Na minha avaliação, a Câmara não trocará um prefeito fraco na mão pela incerteza de uma eleição direta. Crivella está acuado e como vemos com Michel Temer, nada melhor para um Legislativo clientelista do que o um governante fraco. Veremos nos próximos meses um aumento do poder dos vereadores, sobretudo do PMDB, dentro do Executivo municipal. Grupos empresariais que há anos se locupletam dos favores da Prefeitura também devem estar felizes. As tarifas de ônibus já aumentaram e outros contratos polpudos devem ser renovados ou celebrados. Como Crivella é um inepto e sem quadros técnicos e políticos competentes, a tendência é que sua administração continue naufragando em incompetência, apanhando da imprensa e, embora deva conseguir tocar o dia a dia na Câmara, sem maior solidariedade dos aliados de ocasião.

Há ainda um ingrediente extra. A Lei Orgânica do Município do Rio de Janeiro define, em seu artigo 104, que se a vacância dupla de prefeito e vice-prefeito ocorrer no último ano de mandato, a eleição deve ser indireta, o que é diferente do que a Constituição define para o caso da presidência da República, na qual a eleição indireta em caso de dupla vacância ocorre nos dois anos finais do mandato. Há especialistas jurídicos que dizem que haveria uma norma de repetição para governadores e prefeitos, a partir do regramento para o Executivo Federal e que isso pode ser fonte de polêmica em breve. Valendo a regra dos dois anos, se a atual administração continuar a se esfarelar e diante de novos elementos, um pedido de impeachment de Crivella pode prosperar rapidamente a partir de janeiro de 2019. Valendo eleição indireta apenas no último ano de mandato, Crivella pode se arrastar até o final. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos e, ao contrário do que dizia Tiririca (2014), pior do que está, fica.

Carioca, rubro-negro e suburbano, embora more na Zona Sul na última década.

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