Parece incrível, mas nota de 200 reais tem fundamento técnico

Na última quarta-feira (29), o Banco Central do Brasil (BCB) anunciou o lançamento da nova nota de 200 reais que entrará em circulação já a partir do próximo mês de agosto. Impressão de dinheiro físico tem um apelo irresistível para o público geral. A imagem das impressoras rodando novas notas coloridas cheirando a novas mexe com os sentidos e a memória afetiva das pessoas, e em poucas horas, as redes sociais estavam em polvorosa com a notícia.

O atual governo brasileiro não goza da confiança da maioria da população, sendo que cerca de 40%, com bastante razão, desconfia sempre de intenções malignas de qualquer medida concebida no Planalto. Como pode o ultraliberal Paulo Guedes autorizar impressão de dinheiro em uma nota de valor alto? Justamente o governo mais avesso ao gasto público será o primeiro a aumentar o valor da nota máxima da moeda nacional desde sua adoção em 1994. Estaria o governo prevendo um surto inflacionário e se antecipando?

A memória inflacionária brasileira ainda persiste, mesmo duas décadas e meia após o país passar a ter índices civilizados de inflação. Sucessão de notas cheias de zeros vieram e se foram, denominadas em diversas moedas, levando consigo os personagens históricos nelas gravados.

Em 1º de julho de 1994 surgiu a moeda atual, como parte da estratégia de estabilização monetária que ficou conhecida como Plano Real, com notas de R$ 1, R$ 5, R$ 10, R$ 50 e R$ 100, ilustradas por animais da fauna brasileira. Anos depois foram lançadas as notas de R$ 2 e de R$ 20 e a de R$ 1 foi abolida, resistindo apenas as moedas nesse valor. E desde então não houve mudanças na família de notas brasileiras.

Inflação de mais de 500% e uso de dinheiro de papel explica a medida

Ao longo de 26 anos, desde a adoção do real como moeda nacional, a inflação acumulada pelo IPCA foi de mais de 500%. Entretanto, continuamos com as mesmas notas desde então. No mesmo período, vimos uma evolução exponencial da utilização de meios de pagamento eletrônicos. Em 1994, poucos estabelecimentos usavam cartão de crédito, que passavam por máquinas manuais que utilizavam papel carbono e requisitavam assinatura do portador. Cartões de débito começaram a se popularizar no final da década de 1990. Máquinas portáteis e conectadas à internet, cartões com chip e transações eletrônicas em tempo real foram se tornando cada vez mais populares, sobretudo para operações de maior valor, adiando a necessidade de notas mais altas, mesmo com taxas de inflação acumuladas de três dígitos desde o Plano Real.

No entanto, o Brasil é um país grande, diverso e desigual. A maior parte da população ainda usa o papel moeda em seu dia a dia. Com a inflação e crescimento da economia, o volume total de papel moeda seguiu crescendo, mesmo com a popularização dos meios eletrônicos. No início de 2001, a soma de todas as notas físicas em circulação, o chamado Papel Moeda em Poder do Público (PMPP) somava menos de R$ 30 bilhões. Este valor chegou a mais de R$ 200 bilhões no ano passado. Isso acontece por uma série de fatores. O principal é pelo fato de grande parte da população viver de atividades econômicas informais, onde ou há pouca ou nenhuma bancarização. Mas as transações deste vasto circuito econômico são em sua imensa maioria de baixo valor, necessitando de muitas notas, porém prescindindo de notas altas.

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Segundo o BCB, durante a pandemia da Covid-19, a demanda por papel moeda deu salto um repentino, acima da média observada. De R$ 210 bilhões no início de 2020, o PMPP chegou a R$ 270 bilhões em julho. Um crescimento de cerca de 30% em poucos meses. Entre os principais motivos, há o entesouramento (prática de acumular dinheiro em casa) – comportamento defensivo diante de um quadro de incertezas – e o pagamento do auxílio financeiro emergencial, cujo público-alvo em grande parte prefere (ou só tem como) sacar os valores em espécie a utilizar meios de pagamento eletrônicos.

Conforme citado acima, essa parte da população movimenta bastante setores informais da economia. As notas retiradas nos caixas permanecem em circulação por muito tempo sem voltar aos bancos para serem novamente sacadas. Por isso, o governo brasileiro vem imprimindo mais dinheiro do que o habitual e, diante deste quadro, acelerou os planos de adoção da nota de 200 reais que, novamente segundo o BCB, já estava prevista anteriormente.

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A princípio, o impacto do lançamento de uma nova nota de valor mais alto na economia é próximo ao nulo. Os R$ 270 bilhões em circulação parecem muita coisa, mas o orçamento geral da união para 2020 é de R$ 3,6 trilhões. O Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em 2019 foi de mais de R$ 7 trilhões. O valor total do PMPP se assemelha ao PIB do município do Rio de Janeiro, de pouco mais de R$ 330 bilhões. Conforme comentado em outro texto aqui neste site do Lado B do Rio, a principal maneira dos governos emitirem moeda não é imprimindo notas, mas simplesmente emitindo ordens de pagamento eletrônicas.

Diante dos dados e do fato da circulação de dinheiro físico se concentrar nas pequenas operações, o que falta mesmo é nota de 10, 20 e 50. Entretanto, a nova nota permitirá resolver no curtíssimo prazo o problema da disponibilização de notas na boca do caixa. Considerando que a nota de R$ 100, à época de seu lançamento, comprava o equivalente a cerca de R$ 620 aos preços atuais, haver uma nota de 200 reais não é nenhum escândalo em si. Esta medida pode até facilitar a vida de quem precisa movimentar grandes somas de dinheiro sem rastreamento, como o crime organizado, porém tem motivos técnicos que a justificam.

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