2022 é logo ali e a esquerda precisa se preparar

Há cerca de duas semanas uma manchete da Folha de São Paulo gerou certo barulho nas redes. Se tratava de uma entrevista da Mônica Bergamo com o Guilherme Boulos, com o título “Exclusivo: ‘Estou disposto a disputar o Governo de SP em 2022’, diz Boulos”. A tal entrevista – muito superficial, na minha opinião – gerou alegria em alguns e incômodo em outros. 

Muita gente (e aqui estou falando da esquerda e não da direita, que é contra uma eventual candidatura de Boulos em qualquer tempo ou situação) achou “precipitada” a decisão do líder do MTST e meu companheiro de PSOL em se candidatar e, mais ainda, em falar abertamente sobre a candidatura. O argumento geral de quem teve essa análise é de que o Brasil está passando por uma situação de extremo caos, com o agravamento da pandemia e a volta covarde e dolorosa da fome e, portanto, o foco da esquerda deveria ser resolver os problemas de 2021 e não falar sobre 2022. 

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Essa dicotomia me incomoda muito, devo confessar. Incomoda tanto que escolhi escrever sobre isso aqui, essa semana. É uma regra das redes sociais, que gera a identificação de muitas pessoas e, consequentemente, engajamento: apontar que se uma pessoa está falando de X então ela não está falando de Y. Isso acontece o tempo todo, faz parte da dinâmica das redes alimentar esse tipo de crítica onde parece que o ser humano é tão limitado ao ponto de só conseguir falar ou fazer uma única coisa por período de tempo. 

Está comentando BBB? Então você não se importa com as mazelas do Brasil! Está falando de futebol? Então você não se preocupa com o conservadorismo do Congresso! 

Esses são exemplos extremos mas que todo mundo já viu, em formatos ao menos parecidos. 

Óbvio que tem gente que sim, só vai falar de um assunto e não de outro. E óbvio também que todo mundo já sentiu algum tipo de mal estar em ver as pessoas desprendendo muito mais energia para falar de um paredão do que sobre o auxílio emergencial do governo. Mas essas são questões complexas, que não podem ser resumidas com a ideia boba e superficial de que sempre só existem dois lados, o preto e o branco, e quando você fala do preto você está ignorando totalmente o branco.

Dito isso, quero afirmar o que acredito: Boulos está certíssimo em pensar e falar sobre 2022! Assim como Lula também está certo! Assim como Freixo também está certo (vejam o último post do Caio Bellandi, aqui no site do Lado B)! Qualquer quadro político está certo em começar a construir sua jornada para as eleições do próximo ano. É simplista a ideia de que essas pessoas, ao fazerem isso, estão fechando os olhos para as desgraças tantas que pairam sobre nossas cabeças. 

Guilherme Boulos PSOL
Ao se filiar ao PSOL, Boulos trouxe a experiência de líder de movimento popular para o centro da política eleitoral(Divulgação)

Boulos possui uma trajetória ímpar entre as maiores figuras da política brasileira na atualidade. Ele está, há décadas, ao lado da população mais pobre e precarizada do país, especialmente em São Paulo. Montando ocupações, articulando moradias populares, construindo cozinhas solidárias, etc. O trabalho de base de Guilherme Boulos é inquestionável. Assim como também não existe nenhum espaço para dúvidas a respeito da sua combatividade em relação ao Bolsonaro e o bolsonarismo como um todo. 

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As eleições de 2022 serão as mais importantes da nossa recente história democrática, desde a nossa Constituição de 88. Não será uma escolha entre o “bem” e o “mal”, mas entre a mínima chance de resgatarmos um pouco da nossa democracia (que sempre foi muito falha e incompleta) ou nos aprofundarmos no autoritarismo fascista e neoliberal. Tanto no país quanto nos estados o que veremos será uma guerra, onde a extrema-direita deverá usar de toda violência que estiver à sua disposição, para definir se o Brasil tem algum carinho e respeito por si mesmo ou se prefere continuar se lambuzando na barbárie. 

Por isso é fundamental que a esquerda, assim como todo o campo democrático, comece a tratar deste assunto de forma explícita. Não só falando de nomes elegíveis, mas, sobretudo, falando de projetos políticos. O Brasil precisará ser reconstruído, e para isso precisamos de mais do que nomes fortes e diversos, com apelo em todas as camadas da população, sem exceção, mas também de um democrático e popular projeto político, que nos aponte para caminhos guiados pelo feminismo e pelo antirracismo. 

A direita sempre mapeia seus próximos passos eleitorais. Não é segredo quais são as intenções do PSDB, do DEM, etc. Mas, quando a esquerda tenta se organizar previamente, para evitar repetir derrotas e desastres, ela é ironicamente criticada. Importante observar isso, porque também não faltam críticas quando a esquerda deixa tudo para cima da hora, mostrando o que muitas vezes parece ser um certo amadorismo eleitoral. 

2022 é logo ali. A esquerda precisa estar preparada. E isso não significa – nem pode vir a significar – um descaso com a realidade de 2021. Pensar o Brasil é uma tarefa urgente que precisamos pegar com todas as unhas e dentes. E pensar o Brasil passa por denunciarmos e enfrentarmos os retrocessos que temos vivido, mas também passa por pensar sim, de forma aprofundada, as jornadas eleitorais do próximo ano.

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