A América Latina é nosso chão e nosso refúgio

Escrevo esta coluna ainda sob o efeito, tanto anestesiante quanto eufórico, de ter visto, na manhã da última segunda-feira, 19, o resultado das eleições bolivianas, colocando o MAS (Movimento ao Socialismo) como vencedor. Um detalhe que não é qualquer coisa: a vitória foi acachapante! Segundo os dados divulgados até a publicação desta coluna, com 87,89% das urnas apuradas, o MAS tem 25 pontos a mais que o principal partido da direita boliviana, o Comunidad Ciudadana.

E aqui, antes de continuar no ponto principal deste texto, preciso pontuar a dificuldade enorme que foi – e está sendo – saber com profundidade o que estava acontecendo no processo eleitoral boliviano. Não estou falando apenas do regime golpista que ainda governa nosso país vizinho e que tentou, de diferentes modos, interferir na eleição e atrasar seus resultados. Estou falando também da síndrome de vira-lata do jornalismo liberal brasileiro que, embora tenha dezenas de correspondentes cobrindo o dia a dia dos Estados Unidos, não enviaram nenhum correspondente às eleições na Bolívia. As exceções, como sempre, se dão pelas mídias alternativas, pelos parlamentares de esquerda e pelas organizações de solidariedade entre os diferentes países latinos. 

Pois é, apesar de tudo, o Brasil segue sendo um país latino. Muitos mudariam isso, se pudessem. Mas é justamente o fato de tantas e tantos de nós carregarmos não só a noção, mas também o orgulho, de sermos latinos, que faz a vitória do MAS (e do Evo Morales, do Luis “Lucho” Arce, dos povos indígenas e dos socialistas bolivianos) ser também, de certo modo, uma vitória nossa. Uma vitória de todas aquelas e aqueles que têm sentido a dor do golpe contra Dilma Rousseff em 2016 e toda a tragédia que veio após isso. Inclusive, esta vitória pode levar nossa esquerda a uma reflexão que já deveria ter sido feita há muito tempo: quais caminhos precisamos seguir (e quais já perdemos) para que o nosso povo se entenda enquanto construtores da própria história, assim como o povo boliviano?

Leia mais:

Outro mundo, mais humano, existe: vamos superar o capitalismo

Não se trata de um copia e cola. Porém seria um erro monumental não aprendermos nada com quem também vive as mesmas repetições que nós, mas que, a princípio, parece ter achado algumas saídas. Pelo menos lá o “não vai ter golpe” se concretizou em algo além de faixas e adesivos, certo? Existe a chance dos nossos partidos e “líderes” políticos não aprenderem nada, eu sei. Mas vocês precisam entender, por favor, que estou tomada pela anestesia e pela euforia, logo mais propensa à esperança no texto de hoje.

Manifestantes com a bandeira Wiphala, emblema étnico dos povos originários bolivianos, também adotada como símbolo oficial do país durante o governo de Evo Morales (Créditos: Reprodução)

Precisamos de saídas para o nível de barbárie a que o Brasil está se aproximando e adentrando. Estas saídas passam pelas urnas eleitorais sem dúvida, mas não apenas. Não existe emancipação sem povo, sem rua, sem a classe trabalhadora em toda sua diversidade. E é aí que está o nosso calo, tanto na mobilização das massas quanto na quebra de ego das lideranças que realmente – ao que parecem – possuem a única preocupação com eleições, nada além disso. Nosso desafio é grande! Porém nada é maior que a vontade de mudança e de transformação social por parte de um povo tão dolorido e cansado. O que precisamos é que essa transformação penda para o lado esquerdo. 

No domingo, dia 25, acontecerá no Chile o plebiscito que poderá enterrar definitivamente a Constituição neoliberal herdada do regime sanguinário de Pinochet. O povo irá votar se quer, ou não, uma constituição cidadã, formada por um colegiado com paridade de gênero entre homens e mulheres (pela primeira vez na história de um país). Caso os veículos de comunicação brasileiros ajudem nas informações, espero vir com mais um texto positivo na próxima semana. No entanto, de qualquer forma, não há dúvidas: o Brasil só se percebe gigante quando latino. E o Brasil só vê seu próprio futuro quando observa a força descomunal de seus vizinhos. 

Somos América. América Latina!

A partir de R$ 2 mensais, você colabora com a produção de mais conteúdo nas plataformas do Lado B do Rio. Acesse Padrim ou PicPay e conheça as metas e benefícios.

Um comentário em “A América Latina é nosso chão e nosso refúgio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Pin It on Pinterest