O Brasil afundando. E o Rio de Janeiro ignorando

Março começou jogando toda minha energia para baixo. É o mês do assassinato de Berta Cáceres, o mês do assassinato de Marielle. E como se não bastasse, também é o “aniversário” da pandemia de covid-19.

Esse aniversário talvez pudesse ser algo cheio de esperança. 1 ano da pandemia, mas um número de mortos cada vez mais baixo e com cada vez mais vacinas. Mas não, é totalmente o inverso aquí no Brasil. É a festa da desesperança e da falta de perspectivas. Estamos na pior fase da pandemia e não temos, ainda, previsão de uma campanha de vacinação em massa no país. 

O número de casos de covid no mundo caiu pela sexta semana seguida. E o número de mortos caiu pela terceira semana. Mas essa não é a realidade brasileira. Por aqui a situação está cada dia mais desesperadora. Ontem, 2 de março, batemos um novo recorde de mortos, com 1.726 vidas perdidas em apenas 24 horas. Vários estados e capitais estão encarando o colapso de suas redes de saúde, públicas e privadas, em todas as regiões do país. O Hospital Moinhos de Vento, maior da rede privada em Porto Alegre, alugou um contêiner para colocar seus mortos, que já não cabem mais no necrotério. 

É lockdown no Distrito Federal, é toque de recolher em São Paulo. Os prefeitos e governadores estão se equilibrando entre o desespero e a obediência aos empresários, que são contra medidas restritivas. E aqui no Rio de Janeiro? Aqui os empresários parecem ter muito mais voz e muito mais força do que em outros estados e cidades. O Rio de Janeiro parece uma ilha, totalmente isolada do restante do Brasil, onde tanto o governador invisível Cláudio Castro quanto o prefeito fanfarrão Eduardo Paes não cogitam, de nenhuma forma, medidas de restrição da população. 

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Eduardo Paes tem propagado nas redes os “bons números” do Rio em relação à covid. Os números do Rio não são bons, nem razoáveis. Estamos falando de milhares de famílias cariocas que estão chorando seus mortos. Em fevereiro o Rio ultrapassou São Paulo, como a capital com o maior número de mortos no país. Já são mais de 20 mil vidas perdidas aqui na cidade. Se fosse um país, o Rio seria o campeão de mortos por 100 mil habitantes. 

Esse é o governador do Rio do Janeiro. Cláudio Castro. É, eu também não sei quem é. (Reprodução/CNN Brasil)

A verdade é que Eduardo Paes não quer desagradar os empresários da cidade, assim como não quer desagradar Bolsonaro, com quem ele tenta se equilibrar numa relação de nem morde nem assopra. É duro encarar e admitir isso, mas Crivella tomou mais medidas em relação à pandemia, nas primeiras semanas da covid no Rio de Janeiro, do que Paes tem tomado nos seus primeiros três meses de governo. 

O atual prefeito gosta apenas do jogo de cena. São diferentes fotos com famosos sendo vacinados, propagadas como se fossem um avanço coletivo, de toda a cidade. Até agora não é. O número de vacinados até hoje não representa, de fato, nem um fio de esperança no combate à covid. Tudo não tem passado de um jogo de cena que não representa segurança nem para os pouquíssimos que de fato foram vacinados. De nada serve uma pessoa vacinada ilhada num país sem vacinas e onde novas variantes do vírus circulam livremente. 

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Os governantes do Rio estão agindo como se fosse aceitável o atual número de mortos. Esquecem que, num lugar normal, que não fosse essa realidade paralela e distópica brasileira, toda vida deveria importar e toda morte deveria ser lamentada. 

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