Por uma frente ampla, mas nem tanto

Aqui estou eu, no meu primeiro texto de 2021 para o Lado B. Fiquei pensando sobre o que escrever, diante de tantos acontecimentos. Eleição do Lira para a presidência da Câmara? Ai não, deprê demais. BBB e a armadilha das identidades? Ainda não. Falta de vacinas? Também muito deprê. Aí percebi que o Brasil me oferece um leque enorme de assuntos, mas quase todos proporcionando o mesmo tipo de sensação: puro desespero.

Mas tenho pensado, no entanto, na notícia da semana passada, quando o Lula anunciou o Haddad como candidato do PT caso ele próprio seja impedido de se candidatar. Quando eu vi essa notícia não fui tomada por puro desespero, o que já é um avanço. Mas fui tomada sim por uma certa preocupação. 

Haddad recebeu, em 2018, mais de 40 milhões de votos. E eu pergunto o que ele fez com tudo isso. O que fez com todo esse capital político nos últimos dois anos? Quais foram as articulações do possível candidato do PT nos dois piores anos da história da cambaleante democracia brasileira? São perguntas reais e para as quais eu não sei as respostas. E acho isso muito preocupante. 

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Considero Haddad um bom nome na política nacional. Um dos maiores quadros da esquerda, sem dúvidas. Mas, diante de tudo que enfrentamos e enfrentaremos, não tenho (ainda, talvez) a confiança de que ele seja o melhor nome para bater de frente com Bolsonaro, que possui grandes chances de se reeleger. Aliás, a minha preocupação é mais profunda: não sei se esse é o momento de se discutir nomes.

A esquerda deveria estar discutindo projeto! Qual projeto de Brasil nós temos para apresentar? Como vamos reconstruir tudo que tem sido desmontado? Como iremos livrar o povo do desemprego, da miséria, da fome? Como vamos fazer isso sem cair nos mesmos erros (e golpes) que anteriormente? Acredito que as discussões urgentes deveriam ser essas, antes dos nomes. 

Acredito e defendo muito a formação de uma frente ampla de esquerda. Uma frente ampla, mas nem tanto. Não podem caber liberais e centro-direita. E isso não é por sectarismo, mas por saber que os nossos interesses são totalmente opostos. A eleição do Lira, na Câmara dos Deputados, explicitou isso, inclusive. Uma coisa é querer derrubar Bolsonaro, onde várias lutas se encontram, outra coisa é o projeto de país, que possui variantes mesmo no campo da esquerda. 

Eleição de Lira deixou claro: liberais e centro-direita têm interesses opostos aos da esquerda. (Crédito: Divulgação/Câmara dos Deputados)

Precisamos derrotar Bolsonaro e o bolsonarismo. Mas isso não se faz magicamente com um nome salvador da pátria jogado ao vento. Isso se faz com união, com estratégia e, principalmente, com um projeto que vá muito além do clichê de ficar repetindo sobre a “defesa da democracia”. 

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