Prenderam o pitbull fascista

Ontem a noite o Brasil inteiro estava animadíssimo, numa vibe contagiante digna de fim de um campeonato onde todo mundo torce para o mesmo time. Era o terceiro paredão da atual edição do Big Brother Brasil, o programa que tem se entranhado na identidade nacional com muita força desde sua estreia, em 2002. Mas o paredão de ontem não era pra saber quem sairia, mas qual a porcentagem de eliminação de quem obviamente seria retirado da casa. 

Nego Di, um “humorista” do Rio Grande do Sul, em três semanas de confinamento chamou quem luta por justiça social de “vagabundo”, disse que se masturbaria diante de uma mulher dormindo, traiu no jogo o Lucas, que tinha sido responsável por ele ter conquistado a liderança na primeira semana de programa. Reacionário, machista e desleal. Nego Di poderia (ou poderá), certamente, ocupar uma vaga na Jovem Pan ou no Governo Bolsonaro. 

E, para surpresa geral da nação, a noite teve outro refresco para além da tão desejada eliminação do BBB. O deputado Daniel Silveira, do PSL do Rio, foi preso por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. Não é todo dia que dois bolsonaristas se ferram ao vivo diante de todo o Brasil. Mesmo que por apenas 5 minutos, é quase impossível não comemorar. 

Daniel Silveira é o cara que quebrou a placa da Marielle, conseguiu visibilidade com isso e foi eleito deputado federal, mesmo sem ter nenhuma mísera proposta de melhora para o estado do Rio e para o Brasil. Já eleito, ele propôs que as pessoas mortas por policiais possam ter seus órgãos vendidos e/ou usados em experimentos. Uma pausa. É difícil escrever isso e continuar com o texto. É duro constatar que respiramos o mesmo ar que esse tipo de gente que tem tanto desprezo pela existência alheia. 

Daniel Silveira, Rodrigo Amorim e Wilson Wttzel quebram a placa em homenagem à Marielle Franco
Daniel Silveira, Rodrigo Amorim e Wilson Witzel, o trio que quebrou a placa de Marielle Franco

Daniel foi preso por gravar um vídeo onde defende o fechamento do STF. Nos últimos meses foram dezenas de manifestações dele em defesa do fechamento do Tribunal, a favor de uma intervenção militar e pela volta do AI-5. Apesar de ser uma pessoa que, visivelmente, representa um perigo para toda a sociedade, Daniel só foi preso (e existem várias dúvidas jurídicas sobre a legitimidade da ordem de prisão) ao atacar o STF. A imparcialidade e a lisura da Justiça brasileira são sempre questionáveis, mesmo quando o resultado aparentemente é bom para o campo democrático. 

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Porém, fato é que ontem a maioria das pessoas que estavam online comemorando a rejeição recorde de Nego Di, eliminado com 98,76% dos votos, também se deliciaram com a prisão “em flagrante” de Daniel Silveira. Um bolsonarista saindo do isolamento e outro entrando. Paralelo interessante, do tipo que só o Brasil é capaz de oferecer, para o bem e para o mal. 

Daniel sempre se comportou como um pitbull fascista, raivoso e inimigo de tudo que pode parecer minimamente justo e humano. Eu não desejo nada de bom para ele. A culpa cristã é algo que não carrego. Nego Di se mostrou um ser humano desprezível nas últimas três semanas e seu histórico de “humorista”, antes de entrar no reality show, também é triste. Talvez ele possa melhorar enquanto pessoa, embora eu duvide. 

Hoje tanto um quanto outro estão tristes. E a tristeza de Daniel Silveira e de Nego Di só podem significar felicidade, mesmo que momentânea, para o país. É o Brasil feliz de novo. Por enquanto.

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One thought on “Prenderam o pitbull fascista

  • 18 de fevereiro de 2021 em 11:40
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    Não sei se felicidade é a palavra correta, hein? Desejar a prisão de um antagonista ideológico é perigoso, independente do teor de suas declarações. Ele foi preso sem ter cometido qualquer ação de fato criminosa. Foi enquadrado em uma lei sem taxatividade penal. O flagrante foi dado por conta de um vídeo de conteúdo oral, sem ações, somente pelo teor de suas palavras. Mandado de prisão expedido de ofício, sem participação de autoridade policial e Ministério Público. Acho grave e preocupante. Tão grave quanto, é um texto do espectro progressista que celebra esse fato.

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