Tabata Amaral e a farsa liberal

Começou a tramitar ontem na Câmara do Deputados um dos projetos mais nocivos ao povo trabalhador nos últimos tempos: o Projeto de Lei 5595/20, sobre o reconhecimento da educação básica e do ensino superior, em formato presencial, como serviços e atividades essenciais. 

Na prática, caso o PL seja aprovado, professores e alunos terão que voltar para as aulas presenciais, mesmo no pior momento da pandemia. O Projeto de Lei também acaba, durante o período indeterminado da pandemia, com o direito de greve dos professores. 

O que se votou ontem foi a urgência do PL, o que faz com que ele não seja debatido e vá o mais rápido possível para votação. Um atropelo ao rito democrático.

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Mais uma vez um certo nome chamou a atenção, por votar a favor desse projeto que, visivelmente, fere de morte (inclusive literalmente) os direitos e a vida dos profissionais da educação e dos estudantes: a deputada paulista Tabata Amaral. 

Tabata se diz uma “mulher periférica”, por sua origem humilde, e também se define constantemente como uma “ativista da educação”. Porém, o que fica cada dia mais explícito, a cada voto dela na Câmara dos Deputados, é que Tabata é uma ativista pelos lucros da educação privada no país. 

Tabata votou a favor da grotesca Reforma da Previdência encabeçada por Rodrigo Maia, Paulo Guedes e apoiada pelo mercado financeiro. São constantes seus votos a favor de projetos que, de forma muito clara, minam os direitos e conquistas da classe trabalhadora. Porém, existe um detalhe: nós não podemos criticar a Tábata! 

A deputada faz parte de um forte seguimento político atual que usa das suas identidades e das suas jornadas, muitas vezes sim legítimas – até certo ponto – para frear e silenciar qualquer tipo de crítica ou debate. Criticou o voto da Tabata? Então você é invejosa, ou recalcada, ou machista, ou elitista, ou radical demais, ou não sabe lidar com uma mulher jovem na política, ou tudo isso junto. 

Tabata Amaral e a turma do RenovaBR: criadouro de políticos descolados que atuam em favor do capital. (Divulgação)

O liberalismo, como parte fundamental da sustentação do sistema que vivemos – sistema esse que precisa da exploração constante e permanente de trabalhadoras e trabalhadores – se utiliza, cada vez mais, dessa nova tecnologia social onde seus agentes se utilizam de discursos e lutas legítimas para avançar uma agenda anti-povo e anti-pobres. Uma agenda que é racista e machista, uma vez que a população negra e principalmente as mulheres são as maiores vítimas do aumento constante das desigualdades. 

Estamos constantemente falando sobre a necessidade de mulheres ocupando a política. Isso é fundamental para uma democracia. Mas esse discurso não pode ser esvaziado de um debate sobre qual conteúdo político essas mulheres – e demais minorias em direitos – carregam. Não basta ser mulher. Não basta ser negra ou negro. Não basta ser LGBT. Para além da forma, precisamos ter muito cuidado com o conteúdo. 

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Tabata Amaral tem se mostrado uma inimiga da população mais precarizada desse país. Esse debate não é no campo pessoal, sobre a pessoa Tabata. Mas sim sobre a deputada Tabata, que se elegeu com um discurso progressista e pró-educação. Essa crítica também não quer dizer que todos os projetos defendidos pela Tabata são necessariamente ruins, pois não são. 

Porém, de nada adianta ter algumas iniciativas bacanas e fazer até algumas defesas necessárias se, ao mesmo tempo, você se coloca contra o direito à vida daquelas e daqueles que você diz defender. Não adianta carregar a origem periférica com suposto orgulho se, na prática, você opera para uma maior precariedade e vulnerabilidade das pessoas que ainda estão – e sempre estarão – nas periferias. 

O discurso liberal sobre representatividade na política é uma farsa. Representatividade importa sim, importa muito. Mas desprovida de comprometimento político com a base, com o povo, de nada serve. 

Nota do Editor: Recomendamos o Lado B Notícias #46 – RenovaBR. Disponível no site da Central3.

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