Capitalismo x Ecologia: 11 mil cientistas contra o negacionismo paranoico

* Por Eduardo Sá Barreto

Um texto publicado no último dia 5 no periódico BioScience recebeu rapidamente ampla repercussão na mídia nacional e internacional. As manchetes trouxeram, todas, o mesmo tom: mais de 11 mil cientistas do mundo inteiro afirmam que a humanidade enfrenta uma emergência climática.

Curiosamente, não somos apresentados a evidências totalmente novas. O texto aborda processos e tendências razoavelmente conhecidos já há algum tempo. Sendo assim, o que teria mudado entre as afirmações relativamente otimistas de alguns anos atrás e o alarme de agora? O que mudou é que, finalmente, a comunidade científica declara sem meias palavras as dramáticas conclusões que podem ser extraídas de todo o conhecimento gerado nas últimas décadas sobre o funcionamento e as transformações do planeta.

O parágrafo de abertura do artigo é emblemático: “Cientistas têm uma obrigação moral de alertar claramente a humanidade sobre qualquer ameaça catastrófica e ‘falar as coisas como elas são’. Na base desta obrigação […], declaramos clara e inequivocamente, com mais de 11 mil cientistas signatários de todo o mundo, que a Terra enfrenta uma emergência climática”.

Leia mais: Alerta dos cientistas mundiais sobre uma emergência climática

Cada vez mais, qualquer contato superficial com as informações disponíveis já seria suficiente para desfazer os negacionismos climáticos. Dois tipos são particularmente perturbadores: o negacionismo paranoico, que rejeita a própria ideia de mudanças climáticas; e o negacionismo progressista, um tipo novo, que rejeita a ideia de urgência, porque até hoje se mantém otimista em relação às supostas virtudes do desenvolvimento econômico. Trato aqui do primeiro tipo, deixando o segundo para um texto futuro.

Conforme discutido no programa #124 do Lado B do Rio, o primeiro tipo alega que as mudanças climáticas seriam uma grande ficção inventada por um movimento global interessado em destruir a civilização ocidental. Na cabeça do povo, fica a imagem de uma “conspiração comunista”. Como já afirmei em diversas ocasiões, os formuladores dessa birutice sabem que estão mentindo. A pergunta é: por que diabos tanta gente acredita num delírio como esse? Não é difícil responder: qualquer pretensão ecológica séria que se apoie na ciência disponível deve necessariamente assumir posições flagrantemente incompatíveis com a manutenção do capitalismo.

Ouça aqui: Lado B do Rio #124 – Capitalismo x Ecologia

E até o observador leigo é capaz de perceber isso, mesmo que apenas de maneira intuitiva. Ele vê, em linhas muito gerais, que a ciência recomenda decrescimento econômico, redução geral do consumo, taxação sobre combustíveis fósseis, desinvestimento massivo na economia do petróleo etc. Mas ele sabe que todos os governos se dedicam a estimular o consumo e o crescimento. Ele sabe também que disso depende o emprego de muita gente. Ele lembra que a greve dos caminhoneiros de 2018 no Brasil foi impulsionada em parte pelo elevado preço do diesel. Ele ouviu dizer que os protestos dos coletes amarelos na França tiveram alguma relação com a taxação sobre combustíveis. Ele tem uma ideia vaga de que a revolta popular no Equador em 2019 teve como catalisador uma elevação no preço da gasolina. Para completar, lê nos grandes portais a onda de otimismo econômico relacionada ao megaleilão do pré-sal – que do ponto de vista dos ultracapitalistas brasileiros, foi um fiasco.

Em suma, por mais distraído que esteja, nosso observador sabe que combustível barato e abundante, produção crescente e consumo crescente são elementos centrais na vida econômica febril do mundo capitalista. Na consciência desse observador, passa a fazer sentido que uma “ciência” que põe em xeque justamente esses elementos só pode estar muito mal intencionada.

Por mais frustrante que seja esse tipo de crença, vale sublinhar outro aspecto. Nela já está presente – ainda de maneira torta e invertida – o reconhecimento de que o capitalismo é radicalmente incompatível com qualquer ambição de sustentabilidade. Uma das tarefas que cabe à esquerda, creio, é oferecer a esse senso comum em formação um horizonte de ruptura com essa sociedade destrutiva. Justamente por isso, o negacionismo progressista é tão danoso. Por isso, me voltarei à sua crítica em um próximo texto.

* Eduardo Sá Barreto é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF), pesquisador do NIEP-Marx e autor do livro “O capital na estufa: para a crítica da economia das mudanças climáticas.

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