Jornalista Mae O’hagan explica como partido trabalhista inglês se refez à esquerda

O podcast Lado B do Rio desta semana foi um especial com o apresentador do podcast Aufhebunga bunga, Alex Hochuli, e com a jornalista e militante do partido trabalhista inglês (Labour Party), Ellie Mae O’hagan.

O objetivo desta edição foi demonstrar como o partido se reformou à esquerda de maneira popular após a crise econômica de 2008, representando o fim do blairismo.

Tony Blair levou partido para o centro

Para entender como o blairismo ruiu, é importante entender como ele surgiu. O’hagan explicou que o começo da derrocada aconteceu no meio dos anos 80 com um plano de governo que é conhecido como “a mais longa carta de suicídio da história”. O Labour disputou eleições no auge das tensões nas Malvinas e foi varrido eleitoralmente. Desde então, se estabeleceu que o partido deveria ir ao centro e abandonar suas bandeiras tradicionais de esquerda.

Tony Blair levou o Labour Party para o centro. Ganhou as eleições, mas perdeu a massa

Quem ascendeu nesse cenário foi Tony Blair, que adotou a conciliação de classes e o fim da “guerra do patrão contra o empregado”, onde todos se uniriam para ganhar melhor juntos. “Blair obteve grandes vitórias eleitorais e criou um cenário onde a política não estava na boca dos cidadãos. As pessoas sentiam que aquilo que estava sendo feito era o que seria feito e fim de papo”, afirma O’hagan.

A crise de 2008 quebrou esse paradigma de pós-política, mostrando que um pequeno grupo estava sugando a sociedade de uma forma predatória. Durante a crise, a condição de vida do cidadão médio despencou, com salários congelados e custo de vida disparando.

Depois de sair do poder, os trabalhistas tentaram sair um pouco da órbita blairista com Ed Miliband, um candidato um pouco mais à esquerda, mas perderam as eleições de forma inesperada.

Corbyn é a liderança que refundou o partido trabalhista inglês

Jeremy Corbyn impulsionou para a esquerda

A essa altura, em 2015, havia uma geração inteira – que viveu pulando entre empregos temporários e mal pagos, completamente impossibilitados de comprar um imóvel, tendo uma vida pauperizada – que tentou se colar aos liberais-democratas em 2010, atraídos pela proposta de acabar com as anuidades nas faculdades. Mas foram traídos quando o partido formou uma coalizão com os conservadores. Depois, tentaram se associar aos verdes, mas o partido era pequeno demais. Assim, essa massa acabou caindo, em sua grande parte, nos arredores do partido trabalhista após se animarem com a chegada de Jeremy Corbyn ao comando do Labour Party.

E aí começou a mudança interna do partido vinda da base.

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Para efeitos de comparação com o Brasil, Corbyn seria mais ou menos um quadro como Luíza Erundina. Imaginem se Erundina tivesse virado líder do PT nos anos 90, quando ainda era mais jovem. Isso levaria até aquele PT bastante para a esquerda. A base eleitoral do partido trabalhista envolve um enorme investimento em moradias acessíveis, aumento real do salário mínimo de forma significativa e reestatização de empresas de água, luz e transportes, entre outras.

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Reino Unido sofreu com neoliberalismo

Alex Hochuli, que apesar de brasileiro, viveu nessa mesma Grã-Bretanha, acrescenta que o neoliberalismo britânico foi um dos mais avançados do mundo. “Lá nos anos 90 e 00, não se falava em política, tamanho o consenso. É como se a economia não existisse, como se todas as respostas já tivessem sido dadas. E isso foi o que abriu espaço para a radicalização do partido trabalhista, uma vez que as estruturas ficaram todas expostas e não havia nada a se salvar ali”, explica Hochuli.

Nos outros países da Europa, como a erosão do bem-estar foi menor, os partidos de centro-esquerda acabaram optando por tentar se vender como os melhores em gerir essa erosão, ao invés de tentar algo novo. Segundo O’hagan, o programa de austeridade no Reino Unido, desde a crise financeira, foi brutal, numa média de 25% de cortes por pasta, o que gerou um grande movimento contrário a esses cortes. “Uma juventude que se viu vendida foi às ruas protestar, o que acabou formando muitos ativistas. Quando a polícia prendeu vários manifestantes [incluindo a própria Ellie], quadros históricos do partido trabalhista os defenderam e até depuseram em seu favor nos tribunais, ganhando de vez os corações e mentes dos jovens. Alguns até abandonaram movimentos sociais anarquistas para se filiarem ao partido trabalhista”, cita a jornalista. Além disso, muitos ativistas afastados pelo blairismo retornaram ao partido, o que criou um movimento de apoio grande para Corbyn.

Movement se empolga e leva Labour para esquerda

Foi nesse contexto, de uma juventude ativista indignada com seu futuro estar sendo vendido em troca da salvação dos grandes bancos , que surgiu o Movement, um movimento de militância constante para dentro do partido, para garantir que ele seria de fato levado para a esquerda e que as propostas que atraíram essa militância ao partido não se perdessem com o tempo dentro das estruturas partidárias.

O Labour Party, então, foi estruturado de maneira orgânica para manter a energia do movimento e converter espontaneidade em militância permanente, trazendo novos militantes, fazendo trabalho de base, indo para as ruas, questionando líderes.

O Movement ainda tem uma ação coordenada para questionar quadros que ainda são ligados ao blairismo e que, por estarem em distritos onde o partido trabalhista sempre vence, acabam com um emprego eterno, mesmo se eles não estiverem sendo satisfatórios para quem os elegeu. Assim, há um esforço para mudar as regras e criar a possibilidade de primárias, para que não seja necessário fazer uma campanha negativa para o candidato e arriscar mudar a imagem do partido junto à comunidade.

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O sistema eleitoral britânico é o distrital puro, mas o voto é muito mais no partido do que no indivíduo, mesmo assim. Então, em bairros de classe trabalhadora (e o Reino Unido é um país completamente dividido em classes, tem até nobreza ainda) os trabalhistas têm uma série de distritos que estão basicamente em suas mãos de forma eterna, o que acaba acomodando muitos desses políticos.

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Hoje, o grupo de Corbyn controla o partido de maneira completa, com os postos-chave internos todos compostos por membros da esquerda do partido, todos trabalhando na mesma direção. Talvez apenas uma derrota humilhante em uma eleição mude isso no médio prazo.

Para a jornalista inglesa, outra força do Movement é a sua capacidade em usar as mídias sociais, com vídeos curtos, mensagens diretas e outras formas de engajamento. Um sobre a greve de funcionários do McDonald’s atingiu mais de 25% da população britânica, por exemplo. “Outra função do movimento é converter o simpatizante em ativista, ensinando as pessoas a como abordar populares e fazer campanha constantemente”, completa O’hagan.

Fernando Haddad é a nova liderança do PT. Convidados, entretanto, não veem possibilidade de refundação

Paralelo com o Brasil: Haddad e PT

Hochuli traçou um paralelo com o cenário brasileiro, lembrando que Haddad enfrentou um dilema similar ao partido trabalhista de uns anos. “Tentou se afastar do legado ruim do PT para agradar a classe média e deixou um pouco de lado a sua base de eleitores, com a qual o partido tomou como garantido e acabou perdendo apoio em uma série de periferias do Brasil”, cita o convidado.

Na Europa, os partidos de centro esquerda todos estão quase mortos. Mas, quando se apresentam de forma mais radical, como nos casos de Inglaterra, Espanha e França, a esquerda passa a ser uma potência eleitoral. Para O’hagan, isso simboliza a morte do centrismo e do modelo social-liberal. “É a morte da ideia de que a centro-esquerda seria a melhor administradora do estado, por focar aquele 1% a mais no social”, diz a britânica.

Para O’hagan, o próprio FHC e o Brasil são símbolo disso. “Cardoso era o garoto propaganda da 3ª via e, menos de 20 anos depois, o Brasil elegeu um fascista. Nada simboliza a morte do centrismo de forma mais clara. O próprio Macron só conseguiu se eleger se vendendo como um outsider e ainda teve como vantagem disputar o 2º turno contra uma fascista num país que ainda se lembra da ocupação nazista”, exemplifica.

Hochuli acrescenta que o sucesso do Bolsonaro só foi possível por essa mesma propaganda de outsider, de algo novo. “Enquanto isso, o PT ofereceu apenas uma volta aos bons tempos. Eles foram bons, mas também deixou um gosto de chance perdida. O PT poderia ter sido mais radical e ter se reposicionado dentro da esquerda”, opina.

Haddad, o homem responsável por reerguer o PT, possui esse perfil? Para Hochuli, nada indica isso. “Não parece um personagem de ideias políticas mais à esquerda ou que ele tenha a verve política para solidificar um projeto ao seu redor”, diz.

Britânicos sobre eleição de Bolsonaro: “incrédulos”

Segundo a ativista, dentro da esquerda inglesa, a vitória de Bolsonaro causou um profundo horror. “As pessoas estão incrédulas com o que essa vitória representa. O cidadão britânico comum notou essa eleição bem mais do que uma eleição normal de um país que não seja na Europa ou os EUA, mas ele foi tratado por uma cobertura jornalística preguiçosa, sob a ótica da política estadunidense, chamando-o apenas de Trump brasileiro, sem se aprofundar em detalhes sobre o indivíduo”, diz O’Hagan. A jornalista afirma que houve um grande enfoque nas barbaridades que ele disse ao longo da vida, pintando-o como um palhaço, ao invés de mostrar como suas propostas são perigosas para esquerdistas, para e economia brasileira e para o meio ambiente. “A grande mídia do Reino Unido”, completa a britânica, “não está preparada para lidar com o fascismo”. Em lugar nenhum do mundo, cá entre nós.

Jair Bolsonaro
Para O’Hagan, a eleição de Bolsonaro mostrou que grande mídia não sabe (ou não quer) lidar com o neofascismo

O’Hagan explica que a esquerda, na figura do líder do partido e da militância, está com os brasileiros e vai tentar fazer de tudo para prestar solidariedade e pressão internacional com as medidas perigosas que ele venha a trazer. “A pressão internacional será muito importante nesse momento, em especial do Reino Unido, com o maior partido de esquerda do ocidente em membros”, entende.

Como se organizar em tempos de autoritarismo?

Perguntada sobre um conselho para os ativistas que chegaram ao fim da campanha, desesperados para virar voto ou para militantes que estejam meio chateados com o próprio partido, a britânica pediu para que se organizem. “Se houver movimentos próximos a você que querem fazer algo, passe a frequentar. Caso não haja nada, tente formar um com gente próxima a você que compartilha seus objetivos políticos e tente criar uma rede de ativismo entre esses grupos, para formar uma força ainda maior”, pondera a jornalista.

“A esquerda não tem instituições perfeitas e podem ser extremamente frustrantes de militar. Infelizmente, essas frustrações e lidar com muita gente até desagradável é o preço que se paga para tentar avançar uma causa. Ao mesmo tempo que terão pessoas insuportáveis, também é uma chance de formar grandes laços de amizade ao longo da militância”, explica O’hagan, pedindo que as pessoas aceitem as imperfeições do que já existem e tentem construir uma nova realidade dentro desses espaços. “É cansativo, mas é gratificante”, diz.

Lembrando que com o autoritarismo, as coisas podem ficar ainda mais difíceis, mas a organização é essencial.

Hochuli concluiu dizendo que é importante lembrar que a maior parte dos eleitores é favorável a pautas econômicas de esquerda. “A maioria dos eleitores do ocidente inteiro são contra privatizações, contra o desmonte do estado de bem estar. Então a esquerda não pode perder a credibilidade com o povo. É essencial, ao chegar ao poder, fazer o que promete, não tentar se apresentar como um centrismo gentil e se deixar cooptar pelo stablishment“, encerra o convidado.

Alcysio é único espécime de baiano que não come frutos do mar. Honra, contudo, suas origens com uma úlcera adquirida por excesso de pimenta. Possui uma salada de curiosos gostos como culinária, exploração espacial e acidentes aéreos. Ser advogado é um mero detalhe. Comunista, sonha com um mundo onde o povo se torne protagonista de sua própria história e possa superar o estado de barbárie atual.

3 comentários em “Jornalista Mae O’hagan explica como partido trabalhista inglês se refez à esquerda

  • 2 de novembro de 2018 em 16:19
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    Parabéns pelo trabalho, camaradas!

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  • 2 de novembro de 2018 em 16:33
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    Adorei a entrevista. Muito interessante e muito elucidativa.

    Resposta

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