Adriano, Rennan da Penha e a condenação: ser feliz na favela

Eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci / E poder me orgulhar / E ter a consciência que o pobre tem o seu lugar

Você provavelmente leu cantando os versos de “Rap da Felicidade”, música dos funkeiros Cidinho e Doca que, desde 1995, anima bailes e festas Brasil afora com uma letra que diz exatamente o que quer dizer.

Quase 25 anos depois, ser feliz na favela continua sendo uma missão difícil mesmo pra quem pode “se orgulhar” do sucesso, do dinheiro e da fama.

Adriano e a Vila Cruzeiro: a relação de um homem e seu lugar.

Adriano “Imperador”, o atacante ídolo do Flamengo e da Inter de Milão, é quase uma personificação do que diz o rap, que virou canto de torcida quando o jogador voltou da Itália para o Rio de Janeiro.

Desde que sua cabeça entrou em parafuso, e abandonando gradativamente a profissão que exige empenho físico e mental, Adriano procurou refúgio na sua origem: os becos, vielas, casebres e barracos da favela Vila Cruzeiro, na Penha, Zona Norte do Rio.

Guarde esse lugar: Vila Cruzeiro.

Neste espaço de tempo, Adriano conviveu com os olhares discriminatórios da sociedade que não entendia como um milionário vai de Milão à favela em tão pouco tempo e por vontade própria.

E, claro, a Justiça – braço da sociedade com poder suficiente para intimidar pessoas e acabar com reputações – questionou o jogador algumas vezes. Da principal acusação formal, ele foi absolvido: dar uma moto a um traficante varejista , seu amigo de juventude. O crime? Associação para o trafico.

O artigo 35 da Lei 11.343 de 2006 diz: “associarem-se duas ou mais pessoas para o fim de praticar, reiteradamente ou não, qualquer dos crimes previstos nos arts. 33, caput e § 1o, e 34” que, resumidamente, são os artigos que tipificam o tráfico de drogas

Guarde essa acusação: associação para o tráfico.

Se do crime de ser amigo de traficante o Imperador escapou, da acusação moral, não teve jeito: foi e ainda é declarado culpado em mesas de restaurantes chiques ou nem tanto, cadeiras de bares caros ou nem tanto e rodas de amigos aqui e acolá pelo crime não tipificado, mas que abala a sociedade, de ter preferido a Vila Cruzeiro a Milão. Gravíssimo crime contra a honra da classe média e da elite deste país.

Rennan da Penha e o Baile da Gaiola: todo menino é um rei.

Já Renan Santos da Silva nasceu depois do lançamento do Rap da Felicidade. E, atualmente, faz mais sucesso do que Cidinho e Doca: ele é o Rennan da Penha, DJ que coloca o Brasil para dançar com mais de 500 mil inscritos em seu canal no YouTube e outros tantos mil no Spotify, considerado o DJ mais influente do novo ritmo pop das capitais brasileiras, o Funk 150 BPM, mais acelerado que o tradicional.

Rennan também é o produtor e organizador do Baile da Gaiola, furduncinho funk que atrai dezenas de milhares de pessoas na comunidade onde Adriano é o Imperador:

Ela mesma, a Vila Cruzeiro.

O DJ agita e anima uma multidão que chega a 20 mil pessoas. E – pasmem os senhores! – há venda e consumo de drogas no local. Inacreditável, não? Como pode uma festa com milhares de jovens ter esse tipo de coisa? Ainda mais na favela, local onde os grandes traficantes atacadistas despejam suas drogas (vindas, sei lá, suposição, do interior de Minas?) para serem vendidas? Surpreendente!

Nesta altura do campeonato, Rennan poderia ter uma vida profissional longe da favela, longe até da Zona Norte. Os playboys dos grandes condomínios e CEPs nobres consomem tanto funk – e não só o funk – quanto a molecada do subúrbio e das favelas.

Ora, Rennan, entretanto, pode ter o sonho também de ser o “Rei do Funk” na favela onde já há o “Imperador da Bola”.

Mas para a Justiça, o DJ é um criminoso: ele e mais 10 pessoas que organizam o baile na Vila Cruzeiro foram condenados a seis anos e oito meses de prisão, isso mesmo, regime fechado. O crime: avisar aos traficantes que a polícia estava chegando, o que na escala do tráfico da favela é a mais baixa patente chamada de “olheiro”.

A tipificação: associação para o tráfico.

Para a Justiça, o jovem de 24 anos que, mesmo preto, oriundo da favela, ganha dinheiro com arte, é um bandido que merece ser aprisionado porque, supostamente, avisa que a polícia está chegando – e chegando daquele jeitinho que a PMERJ sabe fazer – na favela para acabar coma diversão de milhares de jovens.

Essa tipificação penal costuma ser a favorita da Justiça para colocar na grade jovens que, de alguma forma, têm ligações não-profissionais com o tráfico de drogas da favela, seja por meio afetivo – natural para quem é da comunidade – seja por simplesmente não conseguir ficar a uma distância segura dos traficantes de chinelo e fuzil porque, afinal, moram ali.

Não são acusados de associação para o tráfico, entretanto, DJs ou promoters de festas em mansões e clubes da área nobre da cidade, onde, surpresa!, também se vende e se consome muita droga. Donos de helicópteros com droga também não associam para o tráfico, de acordo com a justiça dos homens brancos de terno e sobrenomes estrangeiros.

Sobra então ao DJ Rennan da Penha tentar escapar desta acusação por meio de recursos judiciais. Mas, assim como Adriano, terá de conviver eternamente com os olhares racistas de uma sociedade onde o preto é culpado pelo crime de ser feliz na favela.

2 comentários em “Adriano, Rennan da Penha e a condenação: ser feliz na favela

  • 25 de março de 2019 em 10:04
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    Caio, seu texto me representa!! Parabéns!!!! Vou usá-lo nas minhas aulas esta semana, pra promover esse debate com a molecada.

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  • 26 de março de 2019 em 14:11
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    Caio, essa sensação de injustiça que é causada pela ditadura das classes sociais mais altas desse país já passou do ponto.
    A droga não é legalizada, mas já está liberada, entretanto a justiça além de ficar prendendo o varejista ainda inventa motivos pra prender o artista… Já passou da hora disso mudar e tenho esperança de que o trabalho de vocês com o Lado B do Rio faça outras pessoas ouvirem a voz do povo oprimido assim como me fez conhecer um pouco da realidade do Rio de Janeiro.

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