Assistente social fala sobre violência doméstica: “É necessário debater outra concepção de mundo para os homens”

Exatas 24 horas depois da execução da vereadora carioca Marielle Franco, o podcast Lado B do Rio #53 recebeu no estúdio Majorem o assistente social e apresentador do podcast Revolushow, Zamiliano.

O que era para ser um papo mais leve e descontraído sobre a conjuntura do país, acabou sendo uma homenagem ainda atônita e um espaço para conjecturas sobre o brutal assassinato de um dos quadros mais importantes da esquerda fluminense.

Como não poderia ser diferente, a primeira metade do programa foi dedicada exclusivamente ao assunto. Ao lado dos panelistas, Zamiliano pensou alguma hipóteses: “Acho que um grupo errático, ‘descaralhado’ das ideias, possa ter se irritado com Marielle e pensado: Quem é essa mulher, negra, favelada, que sentou aí na Câmara dos Vereadores e acha que pode falar isso?”, acredita. “O recado é: não brinquem no meu quintal. Mas a gente tem que devolver o recado: quem disse que o quintal é seu?”, reflete Zamiliano.

O apresentador do RevoluShow também lamentou a situação. “Quantas pessoas que se propuseram a participar de um movimento vão pensar duas vezes? Assim como a tortura, o assassinato político é feito para a gente não falar. Toda violência física é uma violência psicológica. Passa um duplo recado: nós vamos matar vocês que ousam pensar o mundo diferente e quem estiver com vocês, mesmo que não tenha nada a ver com isso”, disse o convidado.

“Zapatista irremediável”, como se define (vem daí o pseudônimo Zamiliano, do revolucionário mexicano Emiliano Zapata), o assistente social teceu comentários sobre a situação do capitalismo, que para ele, vive uma encruzilhada. “Cada vez mais se investe em capital fixo, maquinário para substituir os trabalhadores e isso faz com que a taxa de lucro reduza, afinal, máquina não consome. E como o capitalismo tenta resolver isso? Com especulação, financeirização, projetos de renda mínima. A especulação não resolve, vide a bolha de 2008. Ou a gente alça para um outro momento da nossa sociedade ou viveremos pequenos, mas não tão pequenos assim, momentos de barbárie”, argumentou Zamiliano, que lembrou do relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) que apontou 236 milhões de mortes por inanição de crianças (0 a 5 anos) no mundo, entre 1990 a 2015. “Se isso não é uma falência do sistema econômico, eu não sei o que é”, conclui.

Sobre o trabalho como assistente social na cidade de Valença, que fica no Sul Fluminense e é a segunda maior em extensão do Rio de Janeiro, Zamiliano criticou o enxugamento do estado brasileiro, como os cortes contínuos do Bolsa-Família. “O reflexo disso é eu ter que virar para as pessoas e falar que elas não vão comer. Chegar uma família que pede uma cesta básica e você falar que não tem é algo que te fere a alma”, lamentou.

Zamiliano com os panelista do Lado B do Rio
Zamiliano com os panelistas do Lado B do Rio no estúdio Majorem

O convidado dedicou também boa parte de suas declarações sobre o machismo na sociedade, atentando para o número de casos de violência doméstica, que retornou aos índices de 1996. “Não se investe onde se deve, não se treina policiais, não se trabalha em conjunto com profissionais da medicina. Falta de investimento em políticas públicas, debates na escola, debate no cotidiano”, disse, elogiando a Lei Maria da Penha, uma das mais avançadas do mundo, mas garantindo que sozinha, a lei não irá resolver. “Não se debate o papel do homem na sociedade, o papel da mulher na sociedade, até onde podem ir. O homem pode ter medo, pode ter sentimento. Não precisa ser assertivo. Pode levar desaforo pra casa. Não se investe nisso porque é um grande tabu. Vamos continuar ver dinheiro do estado sendo gasto em vários estruturas de emergência”, afirma.

De acordo com Zamiliano, é preciso explicar e discutir “continuamente e à exaustão” a concepção de sociabilidade do masculino e do feminino, ou seja, ensinar outra concepção de mundo para as pessoas, principalmente, para os homens. “Nas cadeias, os presos por causa da Maria da Penha não se entendem como bandido. A frase é: eu tô aqui, mas eu não sou bandido. Entrar na Maria da Penha não é um crime. O cara fez a merda, bate em uma mulher, foi preso e, da próxima vez, não vai querer ser preso. A concepção é mantida. E a próxima mulher pode ser morta”, finaliza.

O Lado B do Rio #53 com Zamiliano foi ao ar na quinta-feira, dia 15 de março, e também falou sobre a paralisação de juízes federais. Você pode ouvir aqui.

Marielle Franco, presente!

Cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia, palpiteiro da rotina, opinólogo profissional, sommelier da porra toda e deblaterador.

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