Curta mostra remoções de Paes para o Parque Madureira

“Não querem saber quanto tempo a pessoa viveu aqui, a luta que as pessoas tiveram, o sacrifício que fizeram”. É assim que começa o documentário “Queremos ficar em Madureira”, lançado em 2019 pelos coletivos Fala Subúrbio e Subúrbio em Transe, que conta uma parte da história de remoção de moradores da comunidade Vila das Torres para obras que abrigam onde hoje fica o Parque Madureira, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Com depoimentos colhidos entre 2010 e 2011, o curta mostra a resistência e indignação dos moradores da comunidade, alguns com mais de 50 anos no local, com o processo de desapropriação por parte da Secretaria de Habitação do Município então comandado pelo prefeito e, agora pré-candidato, Eduardo Paes (DEM).

“Nosso propósito não é não sair. Nós queremos melhores condições para sair. O prefeito disse que a gente não iria sair de Madureira, mas ele mentiu. Eduardo Guerra tinha que ser o nome dele”, diz uma das moradoras no vídeo.

Curral eleitoral e coligação com PT

Além de Paes, outras figuras políticas conhecidas dos cariocas são citadas no filme. Rosa Fernandes é uma delas. Atualmente no PSC e à época no PMDB que também abrigava o prefeito, a vereadora está em seu sétimo mandato e sempre aparece entre as mais votadas da cidade. Rosa faz da região de Madureira e Irajá seu curral eleitoral, herança de seu pai, Pedro Fernandes, eleito dez vezes para o cargo de deputado estadual. No vídeo, Eraldo de Oliveira Rosa, presidente da Associação de Moradores da Vila Das Torres, conta que ela se apresentou como responsável pelos moradores do local no dia da apresentação pública do projeto. A tabelinha foi feita com então secretário de habitação de Paes, Jorge Bittar, do PT. “Quem te viu, quem te vê: coligação PT-PMDB”, sopra uma voz em off no filme.

Além de casas, Vila das Torres tinha também uma horta urbana onde alguns dos moradores tiravam seus sustentos

O documentário retrata como a população de Vila das Torres tentou resistir aos ataques do poder público que, sem interesse em negociar de maneira justa, ofereceu valores muito abaixo para as desapropriações e pressionou a saída dos moradores. “Dizem que primeiro vão tirar a água, depois a luz, depois irão passar por cima das casas”, denuncia uma mulher no vídeo. “Essa sigla (SMH, de Secretaria Municipal de Habitação) é meio inconveniente. É paradoxo. Ao invés de habitar, está desabitando. Tinha que ser SMD, de Desabitação. SMDP, de Pobres”, diz outra.

Danilo Firmino, um dos produtores: “Não queremos um progresso excludente”

Coordenador do Coletivo Fala Subúrbio e também um dos editores, roteiristas e diretores do documentário, Danilo Firmino finaliza o vídeo mostrando a inauguração do Parque Madureira, já em 2016. Mesmo com suas contradições, explica ele, o espaço exerce uma função de lazer e diversão importante para os moradores. “Mas não queremos um progresso excludente. Algumas partes avançam, mas nossos irmãos estão sendo deixados para atrás. Isso não queremos”, encerra o documentário.

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Firmino diz que a ideia partiu dele mesmo quando corria de Honório Gurgel, onde mora, até Madureira, e assistia à retirada de moradores da favela para a construção do Parque Madureira, que reclamavam das indenizações. “Além do mais, ali ficava a última horta urbana no subúrbio do Rio. Com o documentário, nós queremos mostrar para as próximas gerações que, até 2012, no meio de um dos maiores centros urbanos da América Latina, existia uma comunidade agrícola”, explica.

Atualmente, muitos dos moradores mais idosos da Vila das Torres já morreram. “Alguns entraram em depressão e acabaram falecendo por isso”, conta o ativista. A maior parte foi transferida para Cosmos, na Zona Oeste, a 30 km de Madureira, e foi morar em unidades habitacionais populares dominadas pelas milícias. Os que resistiram, mesmo com cortes de luz e água, conseguiram indenizações mais justas e estão morando nas redondezas do bairro. “Mas o filho da presidente da associação de moradores, um adolescente, foi assassinado. E a Vila das Torres não tinha tráfico”, desconfia Firmino.

O curta pode ser visto na íntegra no canal do Subúrbio em Transe no YouTube. Basta clicar aqui.

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