Igor Julião, do Fluminense: ‘Meu sentido de vida não é acumular dinheiro e ficar com a boca fechada’

Se fosse um jogo de adivinhação: você saberia dizer o que faz um jovem de apenas 24 anos ganhando um rico salário de cinco dígitos, e que além disso, é atleta de um dos maiores clubes de futebol do país, onde passou toda sua infância e adolescência com o único objetivo de ser jogador?

Festas de luxo? Carrões importados?

Vamos de novo: este jovem atleta é bem-sucedido, vindo da Zona Norte do Rio de Janeiro, casado desde cedo e preocupado com a sociedade ao redor.

Certamente frequenta alguma igreja evangélica neopentecostal, né?

Os estereótipos dos boleiros brasileiros indicariam uma dessas opções (às vezes, as duas). Mas não é por acaso que Igor Julião, lateral-direito do Fluminense, é um jogador de futebol completamente diferente, a ponto de, para choque de uma sociedade onde carro é status, andar de transporte público.

Julião ao lado do também convidado, Paulo Júnior, entre os panelistas do Lado B do Rio

Igor Julião fala. E não fala só em “três pontos” ou “fazer o que professor manda”. O atleta tricolor fala do brutal assassinato de Marielle Franco, fala de política, de literatura, de artes e cultura. Fala também contra o racismo, a homofobia e o machismo, dentro e fora dos campos.

E foi assim, falando à vontade, que o jogador esteve com os panelistas do podcast Lado B do Rio no episódio 101, gravado no começo de maio, e se colocou como uma ponta de resistência em um ambiente tão conservador como o futebol brasileiro.

Eis apenas alguns dos melhores momentos:

Conservadorismo no futebol

“O lado conservador dos jogadores está ligado a religião. Uma parte muito grande de jogadores é de cristãos fundamentalistas. Mas os jogadores também têm um lado social bem aflorado, querem ajudar os amigos do bairro, as suas comunidades. Tenho certeza que se fosse discutido política nas escolas, eles teriam visões diferentes”.

Acirramento político nos campos (e fora dele)

“Os estádios de futebol estão virando ambientes tóxicos. Está cada vez pior. É ruim para mulher assistir jogo, para um homossexual assistir com seu parceiro. As pessoas vão ao estádio para vomitarem seus preconceitos, não estão satisfeitas em assistir ao espetáculo, ter um entretenimento. Vão para fazer seu discurso de ódio, ofender o outro. O futebol tem um poder muito grande pra isso. Nós, os jogadores, precisamos usar a nossa voz”.

Caso de racismo na Arena do Grêmio.

“Eu usei da minha voz para denunciar o racismo, pedindo medidas da CBF. Muitos jogadores ficam indignados. Mas eles dizem que não têm argumento para se posicionar abertamente. Alguns têm medo de, na hora de responder a alguma pergunta, a limitação atrapalhar na resposta. O jogador de futebol no Brasil precisa deixar o estudo de lado. Então, chega com uma certa limitação nos profissionais”.

Medo de ser boicotado na carreira

“Têm presidentes de clubes da Série A que pensam o inverso do que eu penso de uma sociedade justa.

Mas eu não falo nenhum absurdo em combater o racismo, a homofobia, o machismo. Essas coisas que são coisas absurdas, que não têm que estar presentes na sociedade. Se a pessoa (possível chefe) pensa diferente de mim, eu passo o emprego

Não é possível que alguém ache o racismo aceitável e pedir para eu não falar nada. Se for assim, eu prefiro passar. A vida é uma só, meu sentido de vida não é acumular dinheiro e ficar com a boca fechada, sem tentar mudar a sociedade onde eu vivo. A gente pode fazer uma diferença”.

Origem do engajamento social

“Eu estudei em uma escola boa, de militares, na Zona Norte do Rio. Meu pai é um ex-militar. O Fluminense fazia viagens internacionais na base, eu conheci outras realidades. Joguei nos EUA, na Eslováquia. Mas o primordial foram as pessoas que passaram pela minha vida e me fizeram enxergar o mundo diferente. Meu pai é um ex-militar durão, daqueles clássicos, mas ele me inseriu na arte, na cultura. Andávamos de transporte público, íamos em museus, víamos filmes. Meu tio, doutor em Ciências Sociais, professor da UFF (Universidade Federal Fluminense), ajudou a mudar minha cabeça com leituras.

Mas meu despertar foi numa visita que eu fiz ao Degase (Departamento Geral de Ações Socioeducativas), com 17 anos, levado pelo meu tio, eu bati um papo com os meninos e meninas. Uma realidade dura, 30 meninos numa cela para dez adolescentes que pareciam meus amigos do futebol enjaulados como animais. Pensei: cara, tem alguma coisa errada com esse sistema”.

Igor Julião é de esquerda?

“Se a esquerda no Brasil é quem luta contra o racismo, a homofobia e contra o machismo. Meu viés é pelo lado social, contra o acúmulo de riqueza. Se isso é ser de esquerda, eu sou”.

O atleta falou também sobre a interação, cada vez mais afastada, entre jornalistas e jogadores de futebol: “Tenho certeza que se meus amigos jogadores pudessem sentar com jornalistas, seriam amigos. A imprensa também afasta um pouco”, afirmou.

No papo de quase 2 horas, que também contou com a presença ilustre do jornalista e podcaster Paulo Junior na bancada, Igor Julião ainda falou sobre suas experiências fora do país, onde comparou as “moradias grandiosas e barracos” dos EUA com as “casinhas com padrão” da Eslováquia, criticou os altos salários para jogadores e deu uma aula de consciência social ao falar de desigualdade social “o dinheiro dá liberdade para uns e escraviza outros”.

Papo imperdível com essa figura necessária do Brasil atual que você encontra, na íntegra, no Spotify, Itunes, nos principais agregadores de podcast para smartphone e no site da Central3.

Cronista do cotidiano, comentarista do dia a dia, palpiteiro da rotina, opinólogo profissional, sommelier da porra toda e deblaterador.

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