Johhny da Silva e um certo Brasil que se recusa a acordar

Antes de mais nada, é bom que se diga: não há e nunca houve “Brasil” ou “um Brasil”. Este país sempre foi dividido, e nunca em metades iguais: entre colonizadores e povos originários, portugueses e indígenas, entre senhores e escravizados, europeus e pretos; entre patrões e trabalhadores, milionários e famélicos.

Há dois, na verdade, muito mais, Brasis que se entrelaçam e convivem de maneira pacificamente violenta. Se separam e se unificam, tensionados, discordantes, mas bebendo do mesmo copo, não somente em um mesmo território geográfico, mas muitas vezes, em uma mesma rua, ou prédio, ou casa. Ou, pior, em um mesmo corpo.

Como falar em “o Brasil” se falamos da pátria de Darcy Ribeiro e Abraham Weinthaub? O Brasil de Chico Buarque e Cartola é o mesmo Brasil de Roger Moreira e Lobão? O Brasil daquele Lobão dos anos 80 é o mesmo Brazil do Lobão dos anos 2010? Não há O Brasil.

 Meu Brasil é o de Cartola e Carlos Cachaça no Morro da Mangueira (Foto de Walter Firmo) 

Há certos Brasis, e um (ou talvez até alguns) Brazis.

Dentre tantos e todos, há um que se recusa a acordar para a realidade que lhe fere diariamente. Falo do Brasil do João da Silva, aquele que trabalhou, ascendeu socialmente e usufruiu de bons queijos na geladeira e cervejas geladas nos bares da cidade na primeira década do século. E, aqui, sem juízo de valor ou saudosismo, é fato posto, visto, vivido, vencido.

João da Silva – e você deve conhecer algum João da Silva, que talvez use John Silva ou João Souza, um outro sobrenome na tentativa de não ser só mais um Silva – se recusa a despertar de seu sono ideológico. João é reacionário, sabemos, mas seu conservadorismo é só da boca pra fora. João grita pela família com o mesmo fervor que trai a mulher. Odeia as drogas, mas só a maconha que é coisa de vagabundo universitário. Um tequinho no banheiro da festa não faz mal se a Brahma estiver gelada.

João é reaça, mas não é bobo. João sabe que regrediu. Que sua situação piorou nos últimos anos. E, meu caro Johnny, convenhamos: estamos na pior. E não estamos necessariamente no mesmo barco, não, viu? Fale por você. Seu barco é seu barco, afinal, você se orgulhava de chegar onde chegou “sem ajuda de governo” nos anos dourados. Agora, João, o governo que você quis, não quer resgatar teu barco à deriva. E não vai, vou logo lhe alertando. Sorte que você não precisa. Ou agora precisa? Pois precisa. E, surpresa, todos precisamos do bote salva-vidas em naufrágios. Saber nadar nas geladas e revoltas águas do alto-mar pouco ajuda.

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Johnny, meu filho, enquanto você dorme, você balbucia três palavras, cada uma com duas sílabas. Parece clamar por um, uma ou vários salvadores. Quando acordado, ou ao menos de pé, as mesmas palavras saem de maneira mais raivosa. Dormindo, são seus Batmans, diz minha psicologia de botequim. Quando está acordado, são seus vilões. Brada e baba, como quem culpa ele/ela/eles pela merda que o seu Brasil, e o de quase todos, se encontram.

Vem cá, meu caro John, óh meritócrata: não fique vermelho de vergonha para admitir que cresceu, progrediu, viajou, esbanjou (mereceu!) em áureos tempos (saudade né, meu filho?) se ficas vermelho de raiva para dizer que a culpa por estar, agora, onde está, é…bem, você sabe…

Vai, John: diariamente, o Brazil, aquele oficial e ao mesmo tempo mitológico que você optou, e brigou, e xingou e comemorou, agora lhe dá gritos na sua cara para que você acorde.

Pode acordar.

Aquele Brasil que você odiava de anos atrás, que, sabemos, não era grandes coisas, era melhor do que o atual.

Você, John, xingava os degraus enquanto subia as escadas.

Agora, João, não há mais degraus, não há mais escadas. Não há mais como subir.

Meu caro amigo…seu nome não é Johnny.

Faça boa descida. Ou acorde enquanto é tempo.

2 comentários em “Johhny da Silva e um certo Brasil que se recusa a acordar

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