No Rio de Janeiro, descer uma ladeira significa viver 23 anos a mais

Já imaginou descer uma ladeira e ter acesso a direitos que, em média, te garantem 23 anos de vida a mais? Não é mágica, é estatística. E acontece mais perto que você imagina: na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Moradores da favela da Rocinha vivem, em média, 23 anos a menos que os habitantes de São Conrado, o metro quadrado mais caro da cidade, e que dá acesso à comunidade. Ou seja, descer a ladeira da favela – ou melhor, atravessar a Passarela da Rocinha, desenhada por Oscar Niemeyer – para morar no asfalto te dá vida.

A afirmação parece exagerada, mas é boa para entender os dados disponibilizados pelo Mapa da Desigualdade 2020 da Casa Fluminense, associação civil sem fins lucrativos, autônoma e apartidária, que catalogou 40 indicadores socioeconômicos da vida urbana na Região Metropolitana do Rio. A partir de dados públicos, utilizando as escalas metropolitana, intermunicipal e intramunicipal, a publicação se organizou em dez eixos temáticos: Habitação, Emprego, Transporte, Segurança, Saneamento, Saúde, Educação, Cultura, Assistência Social e Gestão Pública.

O Mapa foi assunto do podcast Lado B do Rio #159 com Thábara Garcia​, pesquisadora da coordenação de informação da Casa Fluminense.

Desigualdade é vida ou morte

Na Região Metropolitana, a publicação mostra que os habitantes de Niterói vivem, em média, 12 anos mais que os moradores de Queimados, na Baixada Fluminense. Viver mais ou menos escancara a desigualdade social, como explica Vitor Mihessen, coordenador da pesquisa: “Áreas privilegiadas provêm infraestrutura e bem-estar para os seus moradores, enquanto as periferias, subalternizadas, vivem em contextos profundos de vulnerabilidade pelo não acesso a direitos sociais básicos, garantidos constitucionalmente”.

Outros indicadores expostos no Mapa mostram como a desigualdade social é caso de vida ou morte, literalmente. Na Baixada, o município de Japeri não possuía nenhum tipo de leito hospitalar público até 2019, enquanto São João de Meriti contava com dois a cada 10 mil habitantes, o pior índice entre os municípios que possuíam.

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Mobilidade e acesso a serviços também chamam atenção no abismo social em que se coloca o Rio de Janeiro. Diariamente, dois milhões de moradores de toda a Região Metropolitana do Rio precisam se deslocar até a capital para acessar as oportunidades de emprego, estudo, lazer, entre outras. Isso, claro, reflete no bolso: quem mora nas periferias tem mais de um terço da renda comprometida com as passagens de ônibus, enquanto em áreas privilegiadas, há pessoas que não têm nenhum gasto com transporte público, por exemplo.

82% das vítimas de atropelamentos ferroviários eram negros

Os componentes racial e de gênero, claro, também são retratados no Mapa, com machismo desempenhando papel fundamental para a perpetuação da vulnerabilidade social. “Isso fica evidente quando vemos que, dos 22 municípios da Região Metropolitana do Rio, três não têm ou não responderam sobre a existência de Centros de Atendimento à Mulher. E ainda, quando analisamos que, na mesma região, o salário das mulheres negras equivale à metade da remuneração recebida pelos homens brancos desempenhando a mesma atividade econômica”, explica a consultora da pesquisa, Paula Moura.

O Mapa da Desigualdade 2020 da Casa Fluminense ainda compila dados estarrecedores de racismo. De acordo com a pesquisa, informações preliminares do DATASUS afirmam que 42,5% das mortes causadas por atropelamentos ferroviários no Brasil em 2018 ocorreram na Região Metropolitana do Rio de Janeiro (91 casos). Dentre estas vítimas, 82,4% eram negros.

Falta de transparência colabora para desigualdade

A falta de dados, a burocracia e a ausência de transparência das administrações públicas também colaboram para a desigualdade. Afinal, sem a estatística ou com ela pela metade, fica mais difícil a formulação de políticas públicas. Os dados são escassos e, muitas vezes, desatualizados, sendo o Censo de 2010 realizado pelo IBGE a principal referência e fonte para as demais estatísticas. “Além disso, apesar da Lei de Acesso à Informação (LAI) estar em vigor há nove anos, ainda é difícil utilizar essa ferramenta para obter informação, e algumas prefeituras na região metropolitana não disponibilizam o Sistema Eletrônico do Serviço de Informação ao Cidadão (e-SIC) em seus sites”, relata Guilherme Braga Alves, pesquisador do Mapa.

Os 40 indicadores do Mapa da Desigualdade 2020 possuem os mesmos eixos temáticos da Agenda Rio 2030, conjunto de sugestões de políticas públicas feitas pela Casa Fluminense e sua rede de parceiros. Ambos os projetos, de diagnósticos e propostas, dialogam com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), propostos pelas Nações Unidas. Para acessar o mapa interativo no site da organização, clique aqui.

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