‘Nunca me perguntaram sobre a minha sexualidade’, diz Fabi Alvim

Ter uma carreira profissional em um esporte olímpico é, por si só, uma raridade tão grande que equivale a uma imensa (e permanente) conquista. Quando a trajetória é coroada por uma medalha olímpica, a glória coloca o conquistador ou a conquistadora em um patamar de herói ou heroína nacional. E se forem duas e, ainda por cima, ambas de ouro? Pois a filha de um taxista e uma manicure vinda do Irajá, Zona Norte do Rio de Janeiro, Fabiana Alvim, que também atende por Fabi Alvim ou Fabizinha, conseguiu chegar no lugar mais alto do pódio em dois Jogos Olímpicos, sendo parte relevante do elenco dos títulos no vôlei de quadra em 2004 e 2012 – o que é uma verdadeira proeza.

A lista de troféus dentro de quadra desta gigante de 1,69m é muito extensa. Mas é fora do ginásio que a agora comentarista guarda um dos seus principais orgulhos: sua origem suburbana.

Fabi fez questão de destacar de onde vinha quase uma dezena de vezes nas duas horas de entrevista ao Lado B do Rio #114, gravado em agosto deste ano. A entrada no esporte “para não ficar ociosa e trilhar caminhos não muito bons” é o elemento que a aproxima de milhares de atletas. Mas a forma com a qual lida com a própria sexualidade (a ex-jogadora é casada com Júlia, e ambas são mães da pequena Malu), com que debate o esporte no macro e com que expõe seus ideais e princípios, colocam a ex-líbero da seleção em uma rara estante de figuras públicas que se posicionam de alguma forma em prol das lutas sociais.

Leia abaixo alguns dos melhores momentos do programa:

A origem: “moleca” de rua do Irajá

Eu jogava bola com os meninos, mas foi difícil convencer os caras que eu podia jogar vôlei com eles. Como tinham duas quadras, a gente não disputava com o futebol. E eram pouquíssimas meninas que brincavam na rua na minha época. Acho que é algo que minha filha não vai enfrentar, espero que tenha menos resistência em relação a isso. Eu tenho contato com a maioria da galera de Irajá ainda. Muita gente não mudou o título de eleitor, então ainda vota no bairro, é uma forma de se encontrar. Há alguns anos, voltei à escola onde estudei para bater um papo com as crianças. Foi bacana ver como a escola melhorou e ser uma fonte de inspiração pra molecada.

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Dava vontade de matar as cubanas (risos). Despertou rivalidades, prendendo a atenção das pessoas. Criou-se uma legião de fãs que até hoje nos acompanham. Eu tenho amigas cubanas, algumas jogaram no Brasil. Sempre fui fã de todas elas, da forma como viviam intensamente, o amor pelo esporte, como funciona o sistema lá, como são felizes da forma que eles vivem.

As pessoas contestavam sem saber o que eles vivem lá. Era interessante trocar ideia e conversar com elas, ver que eles são felizes da forma que eles vivem. O sucesso de um esporte é consequência da continuidade de outro. É muito legal.

Fabi Alvim
A ausência da politização entre atletas

Falta um pouco informação. Saber de onde a gente vem, a nossa origem. Jamais vou negar minha origem, de onde eu vim, onde aprendi valores. Mas falta um pouco de conhecimento. Não saber que o esporte é fomentado, vem dinheiro estatal. Já nas eleições de 2014, muita gente se manifestou. Cada um tem o direito a se posicionar da forma que for, mas é importante a gente entender como funcionam as coisas porque se não a gente paga mico por mera desinformação.

Eu nunca segui o que me diziam. Fui buscar conhecimento, ler, tentar entender como funciona a realidade, não só do esporte, mas das nossas origens. A galera acaba esquecendo e confundindo as coisas. Meus princípios e valores são inegociáveis. Parar para pensar no macro é muito mais importante para desenvolver as ideias.

Fabi Alvim

Eu jogava de líbero, observo muito as jogadas, antever o que vai acontecer. É meu instinto de atleta. Eu respeito o que cada um decide, mas fico triste quando vejo alguns posicionamentos porque acho que é falta de conhecimento também, mas não só. Não acho que seja esporte de classe média alta. A maioria não é. Não se iluda pelos posicionamentos políticos. É o grande xis da questão. É onde está minha grande consternação. Se o cara parar para pensar, para ler, para estudar um pouco… os atletas param de estudar muito cedo. Tem muita molecada que com 17, 18 anos, está ganhando uma graninha, pára de estudar. A construção do raciocínio e do pensamento fica comprometido. E o que acaba norteando é a influência ao redor, o que vê na internet. O atleta de família menos favorecida quando começa a ganhar mil reais acha que está mais próximo do cara que ganha 5 mil do que daquele que ganha R$ 800. Acho que passa por aí, as coisas se perdem um pouco.

Fabi entre os painelistas do Lado B do Rio
Preconceito e sexualidade

Os atletas se cumprimentam batendo no bumbum do outro e como não é um esporte de contato, rola um machismo escroto, de diminuir quem pratica.

Me perguntam se eu sofri preconceito. Nunca ninguém me perguntou sobre a minha sexualidade. É muito louco isso, nunca ninguém falou. Acho que foi a forma como eu conduzia também, sempre tentei naturalizar. Dentro do vôlei, todas as pessoas sabiam de tudo. Eu não tinha motivos para não falar da minha vida de forma natural. Eu sempre fui espontânea.

Fabi Alvim

Mas tem um clique, uma certa liberdade em determinado momento que as pessoas começam a falar de forma muito aberta. Como o “Sapabonde”, de 2016. As pessoas, principalmente os mais jovens, sentiram um pouco mais de liberdade para falar sobre isso. Tem as questões das influências também. Eu passei a cada vez mais me reafirmar: quem eu sou, de onde eu vim, quais são meus posicionamentos. Porque isso pode acabar influenciando alguém, contaminando alguém do teu lado de forma positiva. É uma forma de fazer algo, tirar a indignação do sofá e falar mais sobre isso, de forma natural. Alguém pode estar precisando de um help.

O episódio com Fabi Alvim você encontra na íntegra no Spotify, iTunes, nos principais agregadores de podcast para smartphone e no site da Central3.

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