“Tentaram eliminá-lo da História, mas fracassaram”, diz Mário Magalhães sobre Marighella

O jornalista e escritor Mário Magalhães esteve no podcast Lado B do Rio pela primeira vez, em fevereiro deste ano, para falar da trajetória de vida de uma das figuras mais combativas da esquerda brasileira: o baiano Carlos Marighella.

A famosa capa da Veja que visava difamar a imagem do guerrilheiro – Reprodução

Comunista, ex-guerrilheiro e deputado constituinte de 1946, Marighella terá parte de sua história contada em um esperado filme, dirigido pelo também baiano Wagner Moura. Após um impasse de meses com a distribuidora Paris Filmes, a obra deverá será lançada no Brasil no próximo dia 20 de novembro, quando se comemora o Dia Nacional da Consciência Negra.

No papo de quase duas horas, Mário, autor da biografia “Marighella – o Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo” que serviu como base para o roteiro do filme, falou sobre como esse filho de um imigrante italiano com uma negra filha de africanos escravizados iniciou seu gosto pelas causas sociais.

O jornalista também explicou como a mídia hegemônica criou narrativas para destruir a reputação de Marighella; enumerou a defesa de direitos quando o comunista foi deputado constituinte; e falou sobre outros diversos assuntos que envolvem o militante, que, para Mário, sofreu uma tentativa contínua de ser eliminado da historiografia brasileira. “Conseguiram por décadas, mas fracassaram“, afirma o biógrafo.

Confira um breve resumo da entrevista:

Sobre as narrativas negativas e o apagamento

Marighella era abstêmio. A famosa capa da Veja, de novembro de 1968, é um exemplo clássico de fake news (eufemismo para mentira) para construir uma imagem negativa dele.

Tentaram eliminar o Marighella da História nacional. Conseguiram por décadas, mas fracassaram. Hoje, tentam fraudar a história para impedir que cada um tire seu juízo sobre Marighella, suas ideias e suas ações. 

Sobre o início da luta política: “A Bahia é outro papo”

A Bahia tem um jeito, e esse jeito pegou o Marighella de jeito. A Bahia é outro papo. É um Estado marcado pela história de rebelião por liberdade e por democracia, sobretudo as revoluções negras. Marighella era um descendente de malês.

O pai rejeitava a Igreja e a mãe era carola. Quando jovem, estudou no Ginásio da Bahia, escola que havia sido reformada por Anísio Teixeira. Depois, na Escola Politécnica da Bahia, onde fez Engenharia Civil. Lá, ele vai para a militância por democracia. Em 1932, por exemplo, apoiou a rebelião paulista contra Getúlio – e ele ainda não era comunista. Foi preso por uma rebelião de alunos. Mais tarde, em 1934, que Marighella entra no Partido Comunista Brasileiro (PCB). Em 1935 ele vem pro Rio e é preso em 1936.  

A Constituinte de 1946 e as pautas atuais

Marighella é mais atual hoje que no tempo da luta armada – e por isso, parece provocar mais amor e ódio. Na Constituinte de 1946, ele e o PCB defenderam o abono de Natal, ou seja, um 13º salário. Lógico que perderam, mas o 13º viraria lei em 1962, e não foi um presente do Jango, mas por causa de muito tempo de luta. 

Também na Constituinte de 1946, ele defendeu a introdução do divórcio. Perdeu, por causa do peso da Igreja Católica. Mas ele dizia que as mulheres já haviam resolvido isso “enfeitando as testas de vocês”. Ou seja, chamando de corno! 

Outra defesa do Marighella era o ensino laico e a liberdade religiosa, que muito historiador sério derrapa nessa questão. Todo mundo estava de acordo com liberdade de religião e culto, mas colocaram uma vírgula: “desde que não ofenda a moral e os bons costumes e provoque transtornos”. A polícia, com base nisso, reprimia os terreiros e locais de cultos de religiões de matriz africana. 

Mário Magalhães entre os panelistas na gravação do Lado B do Rio #91, em fevereiro de 2019 – Lado B do Rio

Também no podcast, Mário falou sobre o racismo que Marighella sofria, inclusive, na Câmara dos Deputados. Ele contou como Marighella conviveu com a eterna perseguição de governos autoritários, entre outros assuntos.

O episódio #91 gravado com o jornalista e biógrafo está disponível na íntegra no Spotify, iTunes, nos principais agregadores de podcast para smartphone e no site da Central3.

Você também pode conferir o making of da gravação do episódio em nosso canal no YouTube.

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