Economia ou saúde? Uma falsa questão

Em meio à pandemia do novo coronavírus, o presidente da República, bem ao seu estilo, tem tentado se tornar uma espécie de “campeão dos pobres e necessitados” discursando contra as medidas de distanciamento social necessárias ao combate à disseminação do vírus. O argumento utilizado é que os efeitos negativos sobre a economia serão muito mais nefastos que os efeitos negativos da pandemia em si. Sabemos que o presidente, por ser absolutamente inepto, necessita se manter em evidência e mobilizar sua base popular mais fiel vestindo o figurino de Don Quixote contra tudo e contra todos: contra a imprensa, o Congresso, o Judiciário, os cientistas e até mesmo seu próprio ministro da Saúde.

Rios de tintas já foram gastos para demonstrar que a pandemia terá efeito devastador sobre a economia mesmo se nenhuma medida de distanciamento social for tomada, com 20% da população necessitando de atendimento médico ao mesmo tempo e morrendo por não tê-lo. A base popular do bolsonarismo, sem acesso à informação de qualidade (e bombardeada por desinformação via neopentecostalismo e grupos de redes sociais) e vulnerável economicamente – e por isso com justificado desespero – não sabe que cabe ao governo presidido por seu mito a responsabilidade de compensar suas perdas financeiras através de um amplo e eficiente programa de renda mínima.

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Entretanto, mesmo a classe média melhor informada se assusta com o tamanho do buraco econômico. E, também justificadamente, teme por seus empregos e salários. Sobretudo quando o governo acena apenas com medidas legais autorizando reduções substanciais de salário, com compensação parcial através de seguro-desemprego. A forma de tranquilizar os trabalhadores melhores remunerados sem quebrar as empresas (sobretudo médias e pequenas) seria, como boa parte do mundo está fazendo, o governo assumir a parcela dos salários que os empregadores não puderem sustentar.

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Aí, nós chegamos a um ponto que não apenas os bolsonaristas, mas também uma boa parcela da opinião pública dá certa razão ao capitão e seu Posto Ipiranga: não tem dinheiro pra sustentar tudo isso. “A Alemanha, a França e o Reino Unido fizeram”, pondera-se. “Ah, mas eles são ricos e nós somos pobres, e ainda por cima o PT roubou tudo!, responde-se.

De fato, as economias desenvolvidas dispõem de mais recursos do que a economia brasileira. Mas isso não tem a ver com recursos financeiros nominais e este é o ponto deste texto. Dinheiro, seja ele papel moeda ou meros lançamentos contábeis, é uma abstração. Não há lastro físico como ouro ou moedas internacionais fortes. O dinheiro vale porque o governo garante.

“Então, Daniel, o governo pode emitir o quanto quiser de moeda?

Sim e não. O único obstáculo à emissão infinita de moeda são os recursos físicos de que dispõe um país, seus insumos produtivos. Vejam, ninguém come dinheiro. Mas o dinheiro pode ser usado pra comprar comida. De nada adianta uma montanha de dinheiro se não houver mais alimentos disponíveis. Desta forma, a emissão indiscriminada de moeda levaria à inflação, pois haveria muita moeda disponível e um conjunto finito de bens e serviços para serem comprados. Desta forma, se todos tiverem muito dinheiro nas mãos, os preços dos bens e produtos subiriam de forma generalizada.

Então, Daniel, a emissão de moeda acima do avanço da produtividade geral gera inflação?

A resposta novamente é sim e não. Depende de quais mercados a moeda extra posta em circulação vai pressionar. Em uma economia aquecida e trabalhando já no limite da capacidade de produção, se o governo criar demanda extraordinária sobre alguns bens e serviços, vai pressionar seu preço para cima. Um caso clássico, no Brasil, é a construção de Brasília. O país não tinha uma estrutura produtiva complexa e consolidada na área de construção civil. A construção de uma cidade inteira em três anos fez faltar cimento e ferro. Milhares de trabalhadores se deslocaram para o Centro-Oeste em busca dos salários relativamente bons. Entretanto, em um quadro de recessão, com imensa capacidade produtiva ociosa, a demanda extra é muito bem-vinda pois interrompe o ciclo negativo de menos renda disponível, menos consumo, menos necessidade de produção, menos empregos, menos renda… etc

Guedes e Bolsonaro não desapegam do ultraliberalismo na economia nem em momentos de crise.
Guedes e Bolsonaro não desapegam do ultraliberalismo nem em momentos de crise.

O Brasil, hoje, está no 5º ano de recessão ou estagnação. É neste cenário que as medidas de distanciamento social devem provocar uma recessão sem precedentes. Fábricas e comércio de produtos não-essenciais paralisados durante meses. Bares e restaurantes fechados. Assim como cinemas, teatros, casas de show, toda a indústria cultural e de entretenimento. Nem novela da Globo está sendo gravada. O governo garantir a manutenção da renda dos trabalhadores destes setores durante a pandemia é essencial não apenas ao bem estar deles e de suas famílias. É essencial também para a manutenção da renda de quem depende dos gastos destes trabalhadores. O garçom do bar fechado pode fazer encomendas no mercadinho da esquina, o artista com agenda de shows cancelados pode pagar a faxineira, mesmo sem ela vir e assim por diante. O dinheiro novo posto em circulação pelo governo não geraria um único real de demanda extra. Ele se presta à MANUTENÇÃO do nível de consumo. E quanto menos negócios médios e pequenos quebrarem durante a pandemia, e quanto menos cadeias produtivas se desorganizarem, mais rápida e mais fácil será a retomada quando as medidas de distanciamento social forem relaxadas.

Se não tivéssemos no Palácio do Planalto um mitômano egocêntrico e se este não tivesse nomeado para o Ministério da Economia um bando de fundamentalistas de mercado financeiro, era para essa questão ser uma facilmente superada e estarmos nos preocupando nos reais limites da economia brasileira frente a crise sanitária: não dispomos, em território nacional, dos insumos necessários para o combate à crise: não somos capazes de produzir em larga escala os testes para detecção do vírus porque não produzimos os reagentes necessários; não dispomos da tecnologia necessária para a fabricação em larga escala e em curto prazo dos ventiladores pulmonares necessário; e nem mesmo temos a capacidade instalada para a produção das máscaras faciais adequadas. E, no mundo, todos esses insumos estão em falta pois todos estão demandando ao mesmo tempo. Neste cenário, ou você tem o poder de emitir a moeda universalmente aceita, como os Estados Unidos, e paga o dobro ou o triplo por encomendas já acertadas para outros países em pistas de aeroporto, ou você se aproveita de uma capacidade produtiva já instalada no país de fácil adaptação para a produção do que é necessário no curto prazo (a chamada conversão produtiva).

O Brasil, muito atrasado, segue discutindo onde cortar no orçamento para pagar o insuficiente auxílio de R$600 por chefe de família para desempregados e informais.

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