Família Brasil? Por que não devemos comparar orçamento familiar com o público

Os governos são como famílias. Se gastaram mais do que ganham terão que se endividar para cobrir esses custos extras. Em algum momento, precisarão apertar os cintos e cortar gastos para separar parte da renda para pagar essas dívidas, senão elas se tornam fora de controle e insustentáveis. Certo? Errado. Muito errado.

Entretanto, a leitora ou leitor já deve ter se deparado tanto com essa análise na mídia que é até capaz de acreditar na metáfora do orçamento público com a mesma lógica do orçamento familiar. Afinal, é uma metáfora poderosa ao simplificar situações complexas em uma simples, de fácil entendimento e, literalmente, familiar para todas as pessoas.

Mas por quê, então, o orçamento público é diferente de um orçamento familiar? Uma família urbana padrão não produz internamente a ampla maioria dos bens necessários a seu dia a dia. Precisa ir ao mercado para obter alimentação, vestuário, moradia, transporte, cultura e lazer. Para isso precisa obter dinheiro, seja vendendo sua força de trabalho, prestando serviços ou criando pequenos negócios. Nesse caso, é válida a premissa do primeiro parágrafo: é insustentável gastar mais do que se ganha no longo prazo.

Já um país, e sobretudo um país do tamanho do Brasil, possui dentro de seu território a maior parte dos recursos para a vida de seus milhões de cidadãos: recursos naturais, mão de obra e tecnologia para combiná-los na produção de bens e serviços que irão satisfazer as necessidades da população. Ao governo, que administra a moeda e a prestação de serviços públicos, cabe mediar as relações de produção e as relações dos agentes internos com os externos.

Aí é quando começa a briga.

As visões mais à direita do espectro político defendem que os mercados, tanto interno como externo, devem funcionar livremente e ao governo não apenas cabe deixar rolar, como cabe defender a todo custo a livre movimentação do mercado, nem que seja com uma ação militar contra aqueles que representam perigo para o livre funcionamento dos mercados.

Já as visões ligadas à esquerda defendem que o governo garanta, prioritariamente, o bem estar da maior parte de seus cidadãos, se possível, de todos eles. Um governo pode fazer isso: fornecendo serviços básicos (como educação, saúde e saneamento) de qualidade sem se preocupar com a lucratividade, controlando a produção de recursos básicos estratégicos (como petróleo e energia elétrica), regulando as relações de trabalho (garantindo níveis mínimos de renda e incentivando a estabilidade dos trabalhadores), dentre outras ações. E se não tiver dinheiro para bancar isso tudo?

Isso pode chocar algumas pessoas, mas o nosso dinheiro só tem valor porque o governo diz que tem (e a gente acredita). Não há nenhuma caixa-forte cheia de ouro que garanta o valor real do Real. O governo pode criar moeda (nos tempos atuais, nem precisa imprimir, a maior parte da moeda em circulação é contábil, ou seja, virtual). Toda vez que o governo paga por algum bem ou serviço ele cria moeda. Toda vez que cobra impostos, destrói moeda, ao retirá-la da sociedade.

Mas se o governo gastar mais do que arrecada vai gerar inflação? A resposta a essa pergunta é típica de um economista. Pode ser que sim, pode ser que não. Mas ao contrário do argumento de especialista de TV a cabo, um deficit público não cria, magicamente, inflação. Haverá inflação se os gastos do governo (com deficit ou não) pressionarem a demanda em um determinado setor que não tenha capacidade para aumentar sua oferta.

Um exemplo prático: a construção de Brasília. Na década de 1950, a indústria da construção civil era pouco desenvolvida no país. Em um espaço de três anos, o Governo Federal construiu uma cidade inteira. O resultado foi a falta de cimento, pedra britada e ferro em todo o país e a consequente disparada nos preços. O aumento de preços nestes setores contaminam outros, que dele dependem, e isso acaba resultando num processo inflacionário, que é a alta generalizada de preços. Portanto, mais importante do que cortar gastos públicos para controlar a inflação, é o planejamento do gasto público, para que se obtenha o maior bem comum possível sem causar graves desequilíbrios na economia.

O único aspecto no qual a metáfora da família se aplica é na relação com o exterior. Quando o país não possui eventuais recursos importantes, ele tem que comprá-los no exterior (importação) pagando com o que obtém vendendo alguns dos seus próprios recursos (exportação). Neste caso, se o valor das importações superar o das exportações, o país precisará se financiar em moeda estrangeira (em geral, dólares americanos). Quando há desequilíbrios nessa relação, o impacto interno costuma ser forte. Daí a importância de controlar setores estratégicos e o investimento em tecnologia para tornar o país menos dependente de mercados externos, mesmo quando no curto prazo pareça mais barato e prático importar recursos do que desenvolver sua produção internamente.

Mais do que econômica, a briga entre diversas visões sobre gasto público é política, pois toda ação do governo beneficia alguns grupos em detrimentos de outros. É natural que os grupos prejudicados reajam com as armas que tem na mão. Então toda vez que assistirmos algum especialista no rádio ou na TV ditando receitas, é bom nos perguntarmos: quem se beneficia com isso? Quem se prejudica com isso? Resumidamente é isso.

É óbvio que um texto breve não dá conta de explicar todos os pormenores das relações econômicas de um país, mas a gente tem que começar. Futuramente, nesse espaço, vamos nos dedicar mais a desmistificar o economês.

Um comentário em “Família Brasil? Por que não devemos comparar orçamento familiar com o público

  • 16 de maio de 2018 em 17:40
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    Aplausos de pé!
    Hoje em dia na tv no rádio e nos outros meios da mídia tem muito comentarista de economia que não sabe nada e fala qualquer porcaria ou repete o que é dito ou sabe muito mas é mau caráter é bem raro achar um comentarista decente.
    Essa comparação ela é doentia, qualquer livro de introdução a economia explica isso muito bem.
    Hoje, ser Keynesiano é ser de esquerda como estamos indo mal. Imagino que se Roberto Campos estivesse vivo e falante como o criminosos do Delfim, iriam colocar ele como de esquerda também.
    O pior disso tudo é que noto esse neoliberalismo safado ainda rondando na América Latina nos países centrais não, e sobre isso muitos desses comentaristas não falam.

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