O economista que dava centralidade às pessoas

O economista Paul Singer morreu nesta última segunda-feira (16/04) em São Paulo, aos 86 anos. Austríaco de nascimento, Singer veio com sua família, de origem judaica, para o Brasil aos oito anos, fugindo dos horrores do nazi-fascismo. Eletrotécnico de formação, trabalhou em fábricas na juventude. Filiado ao Sindicato dos Metalúrgicos, participou de greves operárias importantes. Só aos 24 anos, em 1956, ingressou no curso de Economia da USP. A experiência operária certamente foi fundamental para o futuro professor Singer trazer o mundo real dos trabalhadores para o campo teórico da economia. Crítico tanto dos receituários desenvolvimentistas latino-americanos tradicionais como do chamado Milagre Econômico Brasileiro, promovido pela Ditadura nos anos 1960 e 1970, Singer traçou uma trajetória acadêmica única.

Participou da fundação do PT em 1980 e em 1982, quando o partido se viu diante de sua primeira eleição, Singer coordenou a elaboração do programa econômico da sigla. Os resultados foram muito aquém do esperado. Lula obteve apenas 10% dos votos para governador de São Paulo e o partido elegeu apenas oito deputados federais. Entretanto, as ideias presentes em seu programa pautaram o PT, e por consequência, o debate econômico nacional nas décadas seguintes: a defesa do crescimento econômico via fortalecimento do mercado interno e inclusão social. Essa ideia-força pode parecer simples e até mesmo óbvia em um país desigual como o Brasil, mas as pessoas eram absolutamente ausentes dos receituários econômicos tradicionais, à esquerda e à direita, nos quais a desenvolvimento econômico determina automaticamente a inclusão social.

De forma simplificada, partindo do desenvolvimentismo de Celso Furtado, podemos afirmar que a economia brasileira, como a de qualquer país de Terceiro Mundo, se divide entre um setor dinâmico, de alta produtividade, voltado à exportação (geralmente de algum produto agrícola ou recurso natural, os chamados produtos primários) e os setores atrasados em relação ao resto do mundo. Os proprietários do setor dinâmico acumulam fortunas com os lucros das exportações. Forma-se uma pequena classe média na cadeia produtiva do setor dinâmico e nas prestações de serviço que em torno dele gravitam. Funcionários da burocracia estatal completam essa classe média. O resto da população vive de agricultura de subsistência e da prestação de pequenos serviços. Neste cenário, o consumo de produtos industriais é quase que exclusivo da elite e dessa pequena classe média. O restante gasta toda sua renda para se alimentar e sobreviver. Assim, qualquer política de desenvolvimento encontraria problemas de demanda, pois o mercado consumidor de produtos industriais se resume a uma pequena parcela da população. Desta forma, seria necessário promover a inclusão da população excluída no mercado, de modo a dinamizar a economia como um todo. Bolsa-família e valorização do salário mínimo são políticas herdeiras dessa ideia.

A partir do final dos anos 1990, Singer passou a ser o maior expoente no país da Economia Solidária. Uma forma de organização econômica na qual a propriedade coletiva dos meios de produção pelos trabalhadores se contrapõe à propriedade privada. Se a propriedade é coletiva, o lucro sobre o capital desaparece e, desta forma, toda a renda passa a ser do trabalho. Após experiências pioneiras apoiadas por incubadoras universitárias e por políticas públicas em municípios e estados administrados pelo PT, Paul Singer tornou-se secretário nacional de Economia Solidária em 2003, no primeiro mandato do presidente Lula, quando foi criada a Secretaria Nacional de Economia Solidária, dentro do Ministério do Trabalho. A função da Secretaria foi a de coordenar as políticas públicas de economia solidária. Por mais que se tenha feito no âmbito da formação e do apoio indireto, através de instituições de assessoramento, o apoio direto aos empreendimentos sempre esbarrou nas amarras que o Estado tem para investir em experiências populares, pois todo o normativo legal para o investimento público é feito para favorecer o grande capital. A despeito disso, Singer sobreviveu à frente da Secretaria a todos os “vai-e-vens” conjunturais que fizeram o Ministério do Trabalho trocar de mãos várias vezes, sempre sem ter que submeter sua equipe interna ao loteamento político, tal era seu prestígio junto ao presidente Lula e, depois, à presidenta Dilma.

Nos últimos anos, já doente, permaneceu em seu posto e enfrentando viagens semanais entre São Paulo e Brasília pois sabia da importância da sua figura pessoal para a preservação das políticas públicas em curso. Tive o privilégio de conhece-lo pessoalmente e bater um papo rapidamente, nessa fase. Só deixou o cargo há exatos dois anos, quando exonerou-se após consumado o golpe de 2016.

Paul Singer pode ter deixado este mundo em um mau momento para nosso campo político, mas suas ideias de 40 anos atrás ajudarem a mudar para melhor a vida de milhões de brasileiros e isso não é pouca coisa.

Carioca, rubro-negro e suburbano, embora more na Zona Sul na última década.

Um comentário em “O economista que dava centralidade às pessoas

  • 16 de maio de 2018 em 17:19
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    A presença física dele vai fazer muita falta mas, sua obra esta ai, assim como seu exemplo de vida e luta por um país mais decente para todos isso é muito importante nesse momento.

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